Cinzas e Chá de Erva-Cidreira
O portão de ferro da Casa de Chá não cedeu ao primeiro empurrão. Beatriz, ainda vestindo o blazer estruturado que parecia uma armadura contra o mundo, sentiu o impacto da resistência vibrar em seus ombros tensos. Ela respirou fundo, o ar parado daquele bairro antigo carregado com o cheiro de umidade, concreto gasto e o perfume esquecido de jasmim, e forçou novamente. A ferrugem soltou um gemido metálico, um som agudo que parecia protestar contra sua intrusão.
Ela não estava ali para ficar. O plano era cirúrgico: avaliar o estado da propriedade, contatar a imobiliária e despachar o passado para longe de sua vida. Após o colapso nervoso na última reunião de diretoria, a ideia de um pátio em ruínas parecia um castigo, não um refúgio. Contudo, ao cruzar a soleira, o choque foi imediato. O pátio, que deveria ser um oásis, revelava-se um cenário de abandono. Vasos de cerâmica estavam tombados e cheios de terra seca, e as trepadeiras haviam invadido os bancos de madeira, transformando o que era um espaço de chá em um emaranhado de espinhos. Beatriz caminhou até o centro, cada passo sobre o piso de ladrilhos hidráulicos soltando um estalo seco, como se o chão protestasse sob o peso de sua negligência. Foi então que seus olhos encontraram o que ela temia: um aviso de leilão judicial fixado no portão de ferro, com datas que indicavam que o tempo para vender não era uma escolha sua, mas uma contagem regressiva imposta pelo Estado.
— Você nunca teve paciência para o tempo do chá, Beatriz.
A voz de Seu Arnaldo veio do umbral da porta, rouca e carregada de uma decepção que ele não se dava ao trabalho de esconder. Ele estava parado ali, as mãos calejadas apoiadas no batente gasto, observando-a como se ela fosse uma estranha tentando invadir uma propriedade privada.
— Sua avó dizia que o chá é o ritmo da casa. Se você corre, o chá amarga. Se você impõe a pressa do mundo lá fora, a casa morre.
Beatriz sentiu o maxilar travar. O som da chuva fina contra as telhas de barro, uma cadência melancólica que ela evitara durante anos, parecia agora martelar sua própria urgência. Sem responder, ela entrou na cozinha. Precisava de um protocolo, algo que a ancorasse. A bancada de pedra fria ainda estava lá, empoeirada, mas sólida. Com mãos trêmulas, mas precisas — um resquício de sua disciplina corporativa —, ela começou a organizar o ritual. O vapor da água quente subiu em espirais tímidas, dissipando o cheiro de mofo. Ela despejou a água sobre as folhas frescas de erva-cidreira, um movimento de memória muscular que a pegou de surpresa. O aroma cítrico e terroso envolveu o ambiente, forçando uma intimidade que ela tentava repelir.
— Eu não estou aqui para aprender o ritmo da casa, Arnaldo. Estou aqui para fechá-la — ela respondeu, a voz mantendo uma frieza que ela mesma não sentia.
Arnaldo aceitou o chá, mas seus olhos não saíram do pátio.
— Este lugar pede para ser salvo, não liquidado. Você está tentando vender o que ainda respira.
Ele saiu, deixando-a sozinha com o eco de suas palavras. Beatriz, exausta, tentou limpar o salão principal para tirar as fotos exigidas pelo corretor. O silêncio ali dentro era denso. Ao mover um pesado aparador de jacarandá, o assoalho, corroído pelo tempo, cedeu sob o peso. A perna de Beatriz ficou presa até o joelho em um buraco escuro e irregular. O pânico inicial, porém, foi substituído por uma estranha sensação de alívio ao sentir, sob a ponta de seus dedos, algo que não era entulho. Ela tateou o espaço sob a tábua quebrada e seus dedos roçaram algo envolto em couro: um diário de infusões da avó, contendo mapas e anotações que sugeriam que aquela casa guardava um segredo muito mais valioso — e perigoso — do que qualquer leilão poderia calcular.