Páginas Rasgadas
A luz da tarde entrava pela janela da cozinha como um bisturi, revelando a poeira suspensa no ar e a falha imperdoável no livro de registros. Beatriz passou o polegar pela borda serrilhada das folhas arrancadas. O corte era limpo, cirúrgico, feito por alguém que sabia exatamente o que remover para silenciar a história daquele pátio. Faltavam vinte e nove dias para a demolição, e a prova documental que ela precisava para barrar Lúcia havia sido mutilada.
Ela fechou o livro com um estrondo que fez as xícaras na prateleira vibrarem. O silêncio que se seguiu era denso, carregado com o cheiro de chá velho e a memória de um tio que, aparentemente, morrera guardando segredos demais.
Beatriz encontrou Seu Arnaldo no pátio, polindo um bule de prata com uma obsessão quase religiosa. Ele não levantou os olhos quando ela se aproximou, mas a tensão em seus ombros era uma confissão silenciosa.
— As páginas não sumiram, Arnaldo. Foram arrancadas — disse ela, mantendo a voz firme, embora o coração martelasse contra as costelas. — O senhor estava aqui na noite em que ele morreu. O que foi a 'última xícara'? A nota sob o vidro da mesa não era um desabafo, era um aviso.
Arnaldo parou o movimento. O pano de prato, encardido pelo tempo, tremeu em suas mãos. Ele finalmente a encarou, e o medo em seus olhos era mais profundo do que a tristeza.
— O silêncio é a única coisa que mantém este bairro de pé, Beatriz. Se você puxar esse fio, não vai apenas enfrentar a imobiliária; vai desenterrar uma sujeira que muita gente poderosa prefere esquecer. O que foi arrancado não foi destruído. Foi escondido onde a ganância não ousa tocar: nos alicerces desta casa. Procure onde o piso canta, não onde o papel mente.
Beatriz não esperou por mais explicações. Subiu ao sótão, guiada pela intuição e pela raiva. O compartimento oculto na contracapa do livro de receitas estava vazio, mas as palavras de Arnaldo a levaram para o canto mais escuro do cômodo. Ali, as tábuas do assoalho estavam desalinhadas, como se tivessem sido removidas e recolocadas às pressas anos atrás.
Com a ponta de um estilete, ela forçou a madeira. O assoalho cedeu com um estalido seco. Não havia registros ali, apenas o rastro de cola seca e o vinco onde as páginas haviam sido arrancadas. Beatriz tateou a cavidade, esperando encontrar apenas poeira, mas seus dedos roçaram algo frio e metálico, enterrado profundamente sob a viga mestra.
Ao puxar o objeto, sentiu o peso de uma caixa de metal, selada com uma cera antiga que trazia o brasão da família. Ela não tinha as páginas, mas tinha algo que explicava por que alguém se dera ao trabalho de roubá-las: uma prova de fraude imobiliária que remontava a décadas antes da chegada de Lúcia. O pátio não era apenas um refúgio; era uma evidência de um crime que ainda estava em curso.