Dívida de Aço e o Último Teste
O cronômetro no HUD do 04-K não era apenas um contador; era uma guilhotina digital. 02:14:00. Duas horas, catorze minutos. O tempo que restava antes que o sistema da Academia declarasse a dívida de Kael como impagável e iniciasse o confisco forçado de seu frame.
O 04-K gemia, um lamento metálico que vibrava nos ossos de Kael através dos pedais de controle. O painel central, uma colagem de fios expostos e fita de vedação industrial, piscava um alerta âmbar: Integridade Estrutural: 12%.
No Campo de Provas de Aço-Sideral, a poeira metálica suspensa brilhava sob os holofotes como uma névoa tóxica. À sua frente, o Vanguard de Valéria 'Aço' deslizava pela pista com a elegância predatória de quem possuía peças de fábrica, não sucata soldada com desespero.
— Vamos, seu monte de lixo, não me abandone agora — Kael sibilou, os dedos travados nos manípulos de calibração manual. Ele não podia se dar ao luxo de uma falha de sistema. O Vanguard disparou um pulso cinético. O impacto atingiu o ombro esquerdo do 04-K, arrancando uma placa de blindagem que girou pelo ar como uma lâmina antes de se espatifar na arquibancada.
O público rugiu. Para eles, era um espetáculo; para Kael, era o custo de uma semana de ração e o óleo hidráulico que mantinha seu frame vivo. Ele ignorou os avisos de superaquecimento e forçou os propulsores para além do limite. Em vez de recuar, inclinou o chassi em uma derrapagem suicida na borda do precipício da arena, usando a inércia da queda para girar e descarregar seu canhão de sucata à queima-roupa. O Vanguard cambaleou, atingido. Kael cruzou a linha de chegada enquanto seu frame soltava faíscas de agonia, o metal derretendo sob o estresse.
De volta à oficina de Mestre Jairo, o cheiro de ozônio e metal queimado era um golpe no estômago. Kael desceu do cockpit com as pernas trêmulas.
— Você forçou o núcleo de novo — Jairo não se virou, mas sua voz rouca cortou o silêncio. Ele estava debruçado sobre um servomotor, as mãos calejadas manuseando uma chave de torque com a precisão de um cirurgião. — Seus limitadores estão em frangalhos. Você não está pilotando, está montado em uma granada que decidiu demorar para explodir.
Kael conectou o chip de dados da prova ao terminal. A tela projetou um saldo patético. A Academia havia engolido quase todo o bônus de performance em taxas de manutenção e juros punitivos.
— Eu venci, Jairo. O ranking subiu — Kael rebateu, a voz seca.
Jairo finalmente se virou, limpando a graxa negra das mãos. Ele passou um scanner de diagnóstico pelo chassi. O aparelho emitiu um apito agudo, seguido por uma série de luzes vermelhas que pulsavam como um coração em falha.
— O suporte estrutural está condenado. Se você entrar na próxima prova com isso, o primeiro impacto vai abrir seu cockpit como uma lata de sardinha. Você não aguenta a pressão cinética, muito menos a carga dos propulsores.
Kael olhou para o cronômetro em seu pulso. 23:42:00.
— Eu preciso competir. É a única forma de quitar a dívida e manter o frame. Se eu não subir, o confisco é total.
Jairo suspirou, um som pesado de quem já viu muitos garotos terminarem no ferro-velho. Ele apontou para o núcleo do 04-K.
— Existe uma técnica. Uma sobrecarga de núcleo que ignora os limitadores de segurança. É proibida, Kael. Se a Academia descobrir, seu banimento será permanente. Mas sem ela, seu frame não sobrevive à próxima rodada. Você quer subir no ranking ou quer ser esquecido aqui, junto com as outras sucatas?
Kael encarou a escuridão da oficina. O cronômetro da dívida piscou em vermelho vivo: restam 24 horas para o confisco total.