The Contract Clause
O salão de baile do Hotel Unique parecia projetado para esmagar quem já chegava ferido. A luz dos lustres caía como lâminas de gelo sobre os vestidos e os ternos, e o murmúrio das conversas funcionava como amplificador de qualquer silêncio incômodo. Ana Clara apertava a taça de champanhe com tanta força que os dedos doíam. O vestido preto que a assessoria da empresa insistira que usasse colava no corpo como uma segunda pele que não protegia nada. Ela mantinha o sorriso social para o círculo de investidores e herdeiros, mas era um sorriso de fio desencapado — prestes a provocar curto-circuito.
O celular vibrou dentro da clutch minúscula. Ela ignorou na primeira vez. Na segunda, o nome da escola do Pedro acendeu na tela. O estômago dela despencou.
— Com licença — disse ao grupo, já se afastando antes que alguém pudesse segurá-la com educação.
Encostou-se numa coluna de mármore, ainda visível o suficiente para não parecer que fugia, mas longe o bastante para respirar. Atendeu com a voz baixa.
— Alô?
— Ana Clara? Roberto Almeida, diretor da Horizonte. Desculpe o horário, mas é urgente. O Pedro está bem fisicamente, porém aconteceu um incidente grave hoje à tarde.
O salão inteiro pareceu aumentar o volume só para sufocá-la.
— Que incidente?
— Algumas crianças ouviram o Pedro dizer que o pai dele é Rafael Montenegro. Ele mostrou uma foto antiga que estava no seu celular. O boato já está nos grupos de pais e nas redes das crianças. Se não controlarmos, amanhã isso chega na imprensa. Preciso que a senhora venha cedo. Vamos conversar com o Pedro e a coordenação antes que vire um problema maior para ele.
Ana Clara encostou a testa na coluna fria. A foto. Aquela única foto antiga, tirada num cartório improvisado em outra cidade, quando ela precisou inventar um pai no papel para cadastrar Pedro na escola que prometia portas que nunca se abririam de outro jeito. Rafael Montenegro fora o nome que surgiu primeiro — distante, intocável, um sobrenome que aparecia nos jornais como sinônimo de impunidade e poder. Ninguém questionaria. Até hoje.
— Eu estarei aí amanhã cedo. Obrigada pelo aviso.
Desligou antes que a voz cedesse. Quando ergueu os olhos, o salão já parecia girar mais devagar. Alguém próximo sussurrou “Montenegro”. O nome caiu como veneno em água parada.
Ela precisava sair. Precisava pensar. Mas antes que pudesse dar dois passos em direção à saída, ele apareceu na varanda adjacente.
Rafael Montenegro estava de costas para o salão, ombro apoiado na balaustrada de vidro, paletó aberto, camisa branca impecável. Dois homens conversavam com ele, mas o corpo dele já se virara ligeiramente na direção dela — como se tivesse sentido o peso do olhar antes mesmo de vê-la.
Quando os olhos dele encontraram os dela, o reconhecimento foi imediato e gélido.
— Ana Clara Mendes — disse ele, baixo o suficiente para que só ela ouvisse. Dispensou os dois homens com um gesto mínimo. Eles saíram sem hesitar.
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