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Chapter 10: O Último Prazo

Elias escapa de um cerco no estacionamento, acessa um terminal para tentar injetar a prova no feed de Lucas usando um delay de sete segundos, e foge para a rua, onde confronta a multidão antes de ser cercado novamente.

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O Último Prazo

O estacionamento subterrâneo do prédio comercial, na penumbra da Avenida Paulista, cheirava a concreto úmido e óleo queimado. Elias não tinha tempo para o ar rarefeito; seus olhos estavam cravados na tela do dispositivo improvisado. O contador no canto do visor marcava 23 horas e 36 minutos para o leilão, um verdugo silencioso que não admitia atrasos. O estojo da relíquia, que ele acreditava ter isolado, pulsava um sinal de rastreamento constante para o feed de Lucas. No painel, o chat corria como um rio de ódio em alta velocidade. Milhares de espectadores comentavam cada movimento seu, transformando-o de um homem que buscava a verdade em um animal acuado para o entretenimento das massas.

— Maldito seja — sibilou Elias, os dedos deslizando freneticamente pelo vidro trincado. Se ele descartasse o estojo, a evidência — o microfilme que provava a farsa de 1994 e a culpa do sistema na destruição de seu pai — seria perdida para sempre. Sem aquele pedaço de filme, a história oficial permaneceria inabalável. Um estrondo metálico ecoou vindo do andar superior. Portas de serviço sendo forçadas. A multidão, instigada pela livestream, estava subindo. Elias enfiou o microfilme no bolso interno da jaqueta, quebrou a trava do estojo com um golpe seco de alicate, e disparou para a escada de incêndio. O alarme sonoro que o estojo emitiu ao ser violado ecoou pelo poço do elevador como um grito, confirmando sua posição exata para qualquer drone nas proximidades.

Ele alcançou o 14º andar com os pulmões em brasa. O escritório estava vazio, um labirinto de mesas cobertas por lonas plásticas. Encontrou um terminal antigo, a luz verde do monitor iluminando seu rosto pálido. Conectou o drive e, no momento em que a interface carregou, uma chamada de vídeo forçada surgiu na tela: Beatriz. A imagem era granulada, mas inconfundível. Ela estava sentada em uma sala de monitoramento, com os olhos fixos na lente, transmitindo uma urgência desesperada. Atrás dela, a silhueta de Lucas era uma sombra fria, o brilho de um tablet em suas mãos indicando que ele controlava a narrativa.

— Elias, escute — a voz de Beatriz era contida, um sussurro de aço. — O sistema de transmissão de Lucas tem um atraso de sete segundos para moderação. É a única brecha. Você precisa injetar o código do microfilme agora. Se o feed oscilar, a prova será transmitida para todos os dispositivos conectados à rede dele antes que ele consiga derrubar o sinal.

— Eles vão rastrear a origem em milissegundos, Beatriz! Você sabe o que eles farão com você quando perceberem — Elias respondeu, a voz rouca pelo esforço. Antes que ela pudesse responder, a imagem tremeu. Lucas entrou no quadro, sorrindo para a câmera, e a conexão foi cortada. O silêncio no escritório foi interrompido por batidas violentas na porta de acesso. O cerco havia chegado.

Elias desceu as escadas de incêndio em um ritmo suicida, saltando degraus. Ao forçar a porta lateral do térreo, o rugido da Avenida Paulista o atingiu como um soco. A chuva torrencial não limpava a cidade; ela apenas transformava a sujeira em uma pasta escura que grudava nas solas dos sapatos. Centenas de pessoas bloqueavam a calçada, iluminadas pelo brilho azulado de celulares sintonizados na livestream de Lucas. Ele era a atração principal, o bode expiatório que se recusava a cair silenciosamente.

— Ali! Ele está saindo! — O grito veio de uma jovem a poucos metros. O drone de Lucas zumbia acima, uma vespa mecânica que mantinha o foco implacável. Elias parou, sentindo o peso do microfilme contra o peito. Ele olhou para a multidão, para aqueles rostos vazios, e, em um impulso de desafio, gritou em direção às câmeras dos celulares: — A Operação Sombra de 94 não foi um roubo, foi uma liquidação de ativos do Estado! Perguntem quem assinou a ordem!

A menção ao nome do pai e à operação gerou uma rachadura momentânea no mar de gente. O silêncio, por um segundo, foi mais alto que a chuva. Elias aproveitou a hesitação, mergulhando por uma brecha entre dois manifestantes atordoados. Ele correu para a rua lateral, mas, ao olhar para trás, viu dezenas de celulares virados para ele, gravando sua fuga. O prédio agora estava cercado por uma massa que não sabia se o odiava ou se queria ouvir o que ele tinha a dizer, mas o cerco era total. O cronômetro no seu pulso marcava 23 horas e 34 minutos. O feed de Lucas começou a oscilar, uma falha técnica que denunciava a injeção de dados. O caos estava apenas começando.

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