Novel

Chapter 1: A Relíquia do Descarte

Elias recupera uma relíquia em um armazém alagado, apenas para descobrir que o objeto é um dispositivo de rastreamento e um gatilho para uma contagem regressiva digital que ameaça destruir sua reputação. Ele é cercado por um drone de vigilância, tornando a fuga uma prioridade imediata.

Release unitFull access availablePortuguese / Português
Full chapter open Full chapter access is active.

A Relíquia do Descarte

A chuva em Santos não apenas molhava; ela apagava. O dilúvio golpeava o telhado de zinco do Armazém 14 com uma cadência metálica que engolia qualquer som de passos, criando um isolamento acústico perfeito para o que deveria permanecer enterrado. Elias ajustou o capuz, sentindo a umidade penetrar pelas costuras da jaqueta, e apontou a lanterna para o centro do salão. A luz cortou a penumbra, revelando um caixote de madeira compensada, úmido e estufado, repousando sobre uma palete de metal enferrujado. Era o objeto. A relíquia que, segundo o informante, não deveria existir em catálogo algum.

Elias aproximou-se, o coração batendo no ritmo da chuva. Seus dedos, trêmulos pelo frio e pela adrenalina, forçaram a trava do caixote. O cheiro de mofo e óleo industrial subiu, acre e sufocante. Lá dentro, envolto em panos de linho apodrecidos, estava o artefato: um prisma de obsidiana, pesado, com facetas que pareciam absorver a luz da lanterna em vez de refleti-la. Elias o retirou com cuidado, sentindo um peso antinatural. A superfície estava coberta por uma pátina artificial, uma crosta de sujeira propositalmente aplicada para mascarar o que havia por baixo. Ele passou o polegar com força, raspando a camada de fuligem e resina. O atrito revelou algo que o fez prender a respiração: uma série de caracteres alfanuméricos gravados com precisão cirúrgica, uma sequência proibida que não constava em registro histórico algum. Não era uma peça de museu; era um mapa para um escândalo que, se revelado, incineraria o pouco que restava de sua credibilidade.

O zumbido vindo do interior do objeto não era mecânico; era elétrico, um estalo seco que fez os pelos dos braços de Elias se arrepiarem. Ele conectou o cabo de interface à base da relíquia, sentindo o peso do artefato vibrar contra a bancada de metal oxidado. A luz âmbar do seu dispositivo de análise oscilou, antes de ser engolida por uma notificação invasiva que preencheu a tela. Não era um arquivo de dados comum. Era um feed, um fluxo de metadados que começava a rodar em tempo real. No centro da tela, um cronômetro digital em fonte vermelha agressiva surgiu sobre uma imagem de arquivo: o rosto de Elias, tirado em uma coletiva de imprensa cinco anos atrás, na época em que ele ainda possuía uma carreira. O contador marcava 143:59:59 e decrescia sem hesitação. O sistema não estava apenas catalogando a relíquia; ele estava sincronizando a existência do objeto com a destruição pública de Elias.

— Que droga é essa? — ele sussurrou para a escuridão úmida do armazém. O ar parecia ter ficado mais denso, saturado pelo cheiro de maresia e óleo queimado. Elias tentou encerrar o processo, mas o cursor do tablet travou. Uma nova notificação saltou, sobrepondo-se ao cronômetro: "Evento de Engajamento: Relíquia #099 - Leilão de Identidade. Status: Acesso Negado." O cronômetro não era uma contagem para o leilão, mas para a purga definitiva da evidência — e dele próprio. Ele percebeu, com um frio na espinha, que o objeto emitia um sinal de rádio ativo. Ele não havia encontrado a prova; ele havia acabado de ativar um farol.

Elias tentou sair do armazém, mas a área estava cercada. O som de hélices cortando o ar pesado da tempestade sobrepôs-se ao estalo dos trovões. Elias parou no pátio, o asfalto transformado em um espelho negro e traiçoeiro pela chuva. À frente, a luz de um foco de LED, branca e impiedosa como um interrogatório, varreu a poça de óleo à sua frente antes de travar em seu rosto. O drone, um modelo comercial modificado com câmeras de alta definição, pairava a poucos metros. Ele não estava ali para vigiar o patrimônio do armazém; estava ali para garantir que Elias não saísse com a evidência.

Elias apertou a relíquia contra o peito, sentindo o metal frio perfurar a palma de sua mão através da luva fina. O dispositivo que ele carregava no bolso vibrou. A notificação no feed da relíquia agora exibia sua própria imagem, transmitida ao vivo por aquele mesmo drone para um público que ele não podia ver, mas cujos comentários começavam a inundar sua tela com ameaças. O contador, antes estático, saltou para uma contagem regressiva acelerada: 47 horas, 59 minutos. O tempo para a destruição de tudo o que ele tentava proteger não era mais uma previsão; era uma sentença. O drone travou o foco em Elias, cego e impiedoso, enquanto a chuva continuava a apagar qualquer rastro de sua fuga.

Member Access

Unlock the full catalog

Free preview gets people in. Membership keeps the story moving.

  • Monthly and yearly membership
  • Comic pages, novels, and screen catalog
  • Resume progress and keep favorites synced