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Chapter 6: A Versão Oficial

Beatriz é interrogada por vídeo pelo Antagonista, percebe que está sendo preparada como bode expiatório e confirma que o “protocolo de limpeza” é um incêndio para apagar provas. Ao mesmo tempo, descobre que a relíquia já foi transferida para um cofre privado, que o acesso à rota de trânsito vem de alguém do círculo íntimo de Elias e que suas redes profissionais foram revogadas após o vazamento de um fragmento da verdade. O capítulo termina com a ameaça física se aproximando e a corrida contra o fogo oficialmente iniciada.

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A Versão Oficial

O relógio de retorno tremia em vermelho no alto do corredor técnico: 5 dias, 23 horas e 36 minutos para a transferência definitiva. Beatriz mal terminou de atravessar a porta corta-fogo antes que a tela de produção acendesse sozinha, como se o próprio estúdio tivesse decidido chamá-la pelo nome. Ela vinha com a chave mestra presa na palma suada, o crachá revogado balançando no peito, e o corpo ainda carregava a descarga do lockdown que ela e Elias tinham acabado de romper. Agora, a saída sumira de novo.

A imagem dela apareceu no monitor lateral, alongada pela lente de segurança, e por cima do próprio reflexo surgiu o rosto do Antagonista Oculto: limpo, ampliado, sem ruído, como uma versão oficial da realidade. Beatriz sentiu o estômago apertar. O estúdio sempre fora feito para capturar reação, humilhar hesitação, transformar nervo em conteúdo. Naquela tela, porém, a humilhação vinha sem plateia — e isso era pior.

— Sra. Beatriz — disse a voz, suave demais para aquele corredor de metal e cabo exposto. — Preciso que a senhora confirme uma coisa simples.

O operador de segurança, plantado na extremidade do corredor, fingiu não ouvir. O fone no ouvido dele brilhava de leve. Ele não a tocava, mas também não saía da frente. Beatriz percebeu o detalhe quase com raiva: estava sendo mantida ali não por força, e sim por procedimento.

— Se é procedimento, manda por escrito — respondeu ela, segurando a respiração para não denunciar o tremor. — Meu acesso administrativo foi revogado. Você já sabe disso.

O homem na tela sorriu com a metade da boca.

— Sabe o que é interessante em revogar acesso? É que a pessoa ainda continua vendo tudo. Só deixa de poder interferir. — Ele inclinou a cabeça, como quem observa uma peça mal colocada. — Onde está Elias?

Beatriz não olhou para o lado onde o reflexo do vidro escurecido deixaria Elias ver tudo, se ele estivesse perto o bastante. Ele estava mais adiante, escondido entre o vão de um painel aberto e uma pilha de caixas de cabos, com o papel das coordenadas dobrado dentro da jaqueta. Se ela dissesse o nome dele alto demais, dava ao sistema aquilo que ele queria: um vínculo formal para cortar em seguida.

— Sumiu do seu controle? — ela devolveu. — Talvez você tenha mexido demais no tabuleiro.

A voz não mudou.

— A pergunta continua a mesma.

Beatriz sentiu o corredor encolher. Uma luz branca piscou no teto, e por um segundo a tela refletiu o contorno dela com o rosto do Antagonista sobreposto, como se a sua imagem já tivesse sido sequestrada antes mesmo de ela responder. O primeiro instinto foi obedecer. O segundo, mais antigo e mais feio, era ganhar tempo.

— Elias não está onde vocês deixam gente ficar — disse ela. — E eu também não.

Do outro lado do monitor, o silêncio veio curto. O Antagonista não parecia irritado. Parecia satisfeito por ouvir resistência, como se cada negativa confirmasse uma previsão antiga.

— Engraçado. — A voz dele ficou mais baixa. — Você ainda fala como produtora. Tudo o que você construiu aqui continua buscando aprovação. Até a recusa soa ensaiada.

A frase acertou onde doía. Beatriz sentiu a humilhação subir pelo pescoço. Durante anos, ela tinha vivido disso: da aprovação instantânea, da leitura perfeita do público, do elogio dos números subindo. Agora, a mesma fome de reconhecimento era usada contra ela como um arnês.

— Se você quer uma confissão, escolheu a mulher errada — disse, sem conseguir esconder o veneno.

— Não quero sua confissão. Quero sua utilidade.

Ele não levantou a voz. Não precisava. O corredor inteiro parecia ouvir. O operador de segurança baixou os olhos para a própria luva, talvez para não mostrar que também estava escutando. Beatriz percebeu então o detalhe que a tela deixava escapar no fundo: em uma janela menor de monitoramento, os dutos de exaustão apareciam com marcações em amarelo, e uma delas pulsava num padrão de alerta técnico que ela conhecia bem demais. Plano de contenção. Carregamento de material inflamável. Ordem de serviço priorizada.

— Que utilidade? — perguntou, sem tirar os olhos da faixa amarela.

— A de alguém que ainda pode circular pelo estúdio sem levantar pânico. Quero que você entregue o que sabe sobre a localização de Elias e do servidor externo. Agora.

Beatriz quase riu. “Agora” era o modo favorito do Antagonista de fazer o tempo parecer culpa alheia.

— Não tenho acesso a nada — respondeu. — Você mesmo me desativou.

— Você ainda tem a chave mestra.

Ele sabia. Claro que sabia.

A mão dela fechou com força no metal do crachá morto. Ela conseguiu ver, no reflexo da tela, a pequena tensão no maxilar do operador de segurança quando a palavra chave mestra foi dita. Beatriz notou outra coisa: o homem não estava ali para prendê-la. Estava ali para garantir que ela fosse vista escolhendo.

— Se é sobre o servidor externo, você sabe mais do que eu — disse ela.

— Sei o suficiente. Sei que o original saiu do estúdio. Sei que Elias entregou o laudo ao Guardião. Sei que, em algum ponto, você decidiu virar o corpo útil dessa história.

A menção ao laudo fez o rosto de Beatriz endurecer. Elias tinha sacrificado a única prova formal de inocência para arrancar a localização do acesso externo. Agora ele era um homem sem documento, sem prova, sem proteção. E o Antagonista falava disso como quem conta objetos de um inventário.

— Você está improvisando ameaça porque perdeu o que queria — disse ela.

— Eu já tenho o que queria.

A frase caiu seca, e por um instante Beatriz sentiu o estômago afundar. O homem na tela não explicou. Não precisava. Quem manda na narrativa não entrega todas as peças; só as suficiente para dobrar o outro.

— O que você tem? — ela perguntou, e odiou o quanto isso soou como medo.

A voz respondeu quase com gentileza:

— Você. A versão certa de você.

O monitor lateral trocou de feed. Em vez do rosto dele, abriu-se um painel de log que Beatriz não devia conseguir ver dali. O acesso era mínimo, quase uma provocação: uma linha de protocolo, uma sequência de ordens assinadas por circuito interno e um título que fez a nuca dela gelar.

PROTOCOLLO DE LIMPEZA TOTAL.

Abaixo, uma anotação operacional: desligar supressão automática, liberar dutos térmicos, ativar carga de ignição no núcleo técnico e selar saídas secundárias até conclusão.

Beatriz leu uma vez, depois outra, como se a repetição pudesse transformar aquilo em erro de sistema.

Não era abandono. Era incêndio.

— Não… — ela soltou, sem perceber que tinha falado alto.

— Agora você entendeu — disse o Antagonista. — O estúdio foi desenhado para produzir testemunhos. Então vai terminar do jeito mais eficiente possível: sem testemunhas e sem vestígios.

O operador de segurança finalmente ergueu os olhos, e o pavor discreto dele confirmou o que o coração de Beatriz já sabia: aquilo não era teatro. Alguém ali também havia recebido a ordem. Alguém ia fechar a porta quando o fogo começasse.

— Você vai incendiar tudo? — ela perguntou.

— Já comecei.

A frase veio simples demais para um crime tão grande. Beatriz sentiu o calor subir por baixo das placas do chão, um calor de cabo sobrecarregado, ainda discreto, ainda controlável — por enquanto. O estúdio sempre tivera cheiro de plástico aquecido, café requentado e poeira de ar-condicionado. Agora havia outra camada por baixo disso, um cheiro metálico que ela reconheceu como perigo real antes mesmo de ver fumaça.

Ela respirou uma vez, fundo. Não podia dar ao homem na tela o gosto do desespero inteiro.

— Você está queimando prova física para sobrar só sua edição — disse.

— Não. Estou eliminando a parte do mundo que insiste em contrariar a versão oficial.

A tela piscou. Beatriz viu, na janela menor do painel, uma lista de destinos. Entre eles, um identificador que não deveria aparecer ali: COFRE PRIVADO / TRANSFERÊNCIA INTERNA EM TRÂNSITO.

A relíquia já tinha saído do estúdio.

A confirmação não trouxe alívio. Trouxe piora. Se o objeto não estava mais ali, então o incêndio não era só para apagar o presente; era para apagar os rastros que ligavam o estúdio ao lugar onde a peça tinha ido parar. O fogo também servia para limpar a trilha.

— Você moveu a relíquia — Beatriz disse, já montando a frase com as peças que tinha. — E agora quer queimar o resto.

— “A relíquia”, no singular, já não importa tanto. Importa quem acredita na primeira imagem que vê.

Ela entendeu a armadilha no mesmo instante em que o homem a pronunciou. Não era só um incêndio. Era um enquadramento final. Se o estúdio pegasse fogo com a história ainda viva, a opinião pública absorveria a narrativa preparada antes da cinza: sabotagem de funcionários, fuga de um acusado, caos técnico. Ela e Elias virariam ruído. O Antagonista ficaria com o enredo limpo.

— Você quer me usar como bode expiatório — disse Beatriz.

— Quero que você faça o trabalho que foi treinada para fazer: controlar a reação das pessoas.

A humilhação agora vinha misturada com nojo. Ele não estava apenas destruindo o estúdio. Estava usando o vício dela em manter tudo funcionando. A velha fome de parecer indispensável contra ela mesma.

Beatriz ergueu o olhar para a janela do painel. Elias devia estar a poucos metros. Ela não podia chamá-lo. Não podia correr até ele sem entregar aos sensores um deslocamento óbvio. O corredor técnico era um tubo de olhos.

— Se você já decidiu que tudo vai queimar, por que me chamar? — perguntou.

— Porque você ainda pode escolher quanto sangue fica na versão oficial.

A tela congelou por um segundo, e Beatriz aproveitou a falha mínima para puxar a interface lateral do painel com a chave mestra. O acesso administrativo estava revogado; a tela avisou isso com letras pequenas e cruéis. Mas a chave ainda abria comandos de manutenção. Nada elegante, nada amplo. Só o bastante para mexer no que não devia estar exposto.

Ela entrou num canal de log temporário e localizou o registro de saída de dados do dia anterior. Uma cadeia curta, quase apagada. Ali estava o fragmento que ela precisava: o arquivo do cofre privado havia sido marcado para trânsito fora da cidade, e a autorização vinha de um nome mascarado por nível interno. Não o nome completo — só a assinatura operacional, o tipo de marca que alguém do círculo íntimo de Elias reconheceria. Um nó de acesso de dentro. Um traidor.

O coração dela bateu mais forte. Não era hora de resolver tudo. Mas era hora de saber que o inimigo não estava só na tela.

— Você disse que eu ainda posso interferir — Beatriz falou, puxando a linha do log para um buffer mínimo. — Então toma isso como interferência.

Ela anexou um trecho reduzido do registro — só o suficiente para mostrar o protocolo de incêndio e a menção ao cofre privado — numa mensagem curta, escrita para uma repórter que ainda respondia quando o resto da rede virava fumaça.

O estúdio vai pegar fogo. O arquivo original foi deslocado. Procurem o cofre privado antes que a versão oficial vença.

O cursor piscou uma vez. Enviar.

Por um segundo, nada aconteceu.

Então o sistema vibrou com uma resposta seca, quase mecânica, como uma porta se fechando em prédio público:

ACESSOS PROFISSIONAIS REVOGADOS EM DEFINITIVO.

A mensagem seguinte listava os cortes em cascata: contatos de produção, rede de imprensa, histórico de fornecedores, credenciais de negociação. Uma linha depois da outra, seu nome sendo arrancado dos lugares onde ela existia. Beatriz sentiu o golpe no corpo antes de entendê-lo na cabeça. Não era só isolamento. Era exílio operacional.

— Você não devia ter feito isso — disse o Antagonista, e agora havia, enfim, alguma textura na voz dele. Não raiva. Desaprovação.

— Eu devia ter feito antes.

Ela desligou a tela antes que ele pudesse responder. O monitor apagou com um estalo seco. O corredor ficou mais escuro, mas não mais seguro. O ar tinha mudado: o calor subia pelos dutos, e a fumaça ainda invisível já arranhava a garganta de Beatriz no primeiro suspiro.

Elias saiu da sombra perto da bancada de utilidades no momento em que viu o painel se apagar.

— O que foi isso? — ele perguntou, já lendo o rosto dela.

Beatriz não tinha mais rede, nem nome útil, nem proteção administrativa. Tinha só a verdade que ela conseguira arrancar e o medo de chegar tarde demais.

— Eles vão incendiar o estúdio — disse. — O “protocolo de limpeza” é fogo. E a relíquia já saiu daqui.

Elias não falou de imediato. Pegou o papel das coordenadas dentro da jaqueta, apertou como se fosse prova material de outra coisa, e olhou para o teto, para os dutos, para o caminho por onde o fogo viria. O corpo dele ficou imóvel de um jeito perigoso.

— Para onde foi levada? — ele perguntou.

— Cofre privado. Em trânsito. E o acesso não vem de fora.

Ele levantou os olhos para ela, duro.

— O que quer dizer isso?

Beatriz pensou no fragmento do log, na assinatura mascarada, na familiaridade do gesto operacional. Alguém de dentro. Alguém perto. O tipo de pessoa que sabe abrir portas sem deixar marca e que também sabe a hora exata de fechar a garganta de uma história.

— Quer dizer que o nó de acesso é de alguém do seu círculo — ela disse. — E você vai precisar descobrir quem antes que o fogo apague o resto.

Lá no fundo do corredor, uma sirene curta começou a tocar. Não era ainda alarme geral. Era o aviso prévio que o estúdio dava quando decidia morrer sem plateia. Uma luz âmbar acendeu acima da porta técnica, depois outra, atravessando o teto em pulsos rápidos. Beatriz sentiu a fumaça antes de vê-la: fina, amarga, subindo de algum ponto oculto da infraestrutura.

Elias guardou o papel com as coordenadas no punho, já se movendo. Não para fugir — para avançar.

— Então anda — disse ele.

Beatriz voltou a olhar para a tela apagada, como se ainda pudesse arrancar mais alguma coisa daquela versão oficial que tentava devorá-los vivos. No vidro escuro, o reflexo dela tremia sob a luz de emergência. Atrás do reflexo, distante e pior do que o fogo, havia uma certeza nova: o Antagonista tinha começado a queimar não só o estúdio, mas o lastro material de tudo o que podia provar a fraude.

Se o incêndio chegasse primeiro, eles perderiam a peça, o log, o laudo, o lugar da prova. E talvez a única chance de dizer a verdade antes que ela virasse cinza.

No painel de emergência ao lado da porta, um relatório interno surgiu por um segundo e desapareceu como se tivesse sido arrancado da tela por alguém do outro lado. Beatriz mal teve tempo de ler o suficiente para gelar:

TRANSFERÊNCIA FINAL CONCLUÍDA.

A relíquia já não estava mais no estúdio.

E, no segundo seguinte, o sistema de exaustão soltou um bafo quente demais para ser acidente.

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