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Chapter 12: Chapter 12

Mara é exposta por Lívia em livestream no corredor do arquivo-adjunto, mas força Davi a ler a assinatura parcial e obtém a confirmação de que a consulta cruzada foi inserida por reserva técnica do museu. Helena tenta travar tudo com ameaça formal, Caio revela que o santuário guardava versões e registros, e Mara identifica um observador infiltrado. Ela decide ir ao ar com a prova final, abrindo a revelação sob pressão e pagando com uma perda de confiança imediata. Mara pressiona Padre Caio na sala reservada do arquivo-adjunto e arranca dele a lógica clandestina que liga santuário, reserva técnica e museu, além do nome vinculado ao protocolo 4-19-C. Helena tenta enquadrá-la do lado de fora, mas Mara entra ao vivo com a prova final. A transmissão confirma que o santuário guardava versões, não fé, porém a cena termina com um observador infiltrado identificado e com Mara percebendo que Davi reage ao nome do protocolo de modo suspeito, abrindo a perda de confiança que cobra a vitória. Davi consegue abrir o protocolo e revela que o nome vinculado à reserva técnica é Álvaro Nóbrega, enquanto Helena ativa o enquadramento e Lívia transforma o acesso em live. Padre Caio confirma publicamente que o santuário guardava versões, não fé. Mara decide entrar no ar com o comprovante do arquivo clandestino e expõe o selo interno do museu e o número do protocolo, mas a transmissão também revela o nome de Davi, comprometendo sua confiança e fechando o caminho do arquivo. Mara obriga a prova final a entrar no ar diante de Helena, Lívia e Padre Caio, ligando relíquia, selo interno do museu e protocolo de reserva técnica. A verdade sobre o santuário como arquivo de versões expõe o esquema, mas um gesto de Davi no reflexo instala a dúvida sobre quem ainda é confiável.

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Chapter 12

Chapter 12 — O carimbo interno aparece em público

A tela do celular de Lívia explodiu antes que Mara alcançasse a porta lateral do arquivo-adjunto. No canto superior, o vivo tremia com o rosto esticado de um perfil local; embaixo, os comentários já corriam mais rápido que qualquer explicação: “invasão no arquivo”, “a ex-presidiária quer roubar prova”, “Helena vai prender”. O relógio preso na parede do corredor, acima do balcão de protocolo, não ajudava a esquecer nada: 6 dias, 1 hora e 18 minutos para a transferência ao museu.

Mara sentiu o golpe antes de ver Lívia. A produtora estava parada na transversal do corredor, um ombro encostado na moldura de vidro, o dedo levantado como quem não estava filmando, só “registrando”. Pior: a imagem que vazava mostrava Mara de costas, perto demais da sala restrita, e a legenda já a tinha condenado.

— Não encosta em nada — disse Helena Arantes, surgindo do lado do balcão com a voz seca de carimbo. — Qualquer movimento seu agora pode ser enquadrado como quebra de perímetro e fraude documental.

A palavra “fraude” correu no ar como fumaça. Um auxiliar no protocolo baixou os olhos. Outro fingiu conferir papéis já conferidos. Mara percebeu que, naquele corredor, a lei tinha menos peso que a repetição pública da acusação. Se deixasse Lívia dominar mais trinta segundos, a versão da invasão virava fato.

Ela não olhou para Helena. Olhou para Davi.

— Lê. Agora. Baixo.

Davi hesitou com o bloco na mão, o rosto tenso de quem sabia que qualquer gesto podia virar manchete. Mara puxou do bolso interno a cópia amassada da consulta cruzada — o comprovante que ela vinha escondendo no corpo desde o arquivo, colado à pele como dívida. Enfiou na palma de Davi sem que a câmera de Lívia pegasse o movimento.

— A linha da assinatura parcial — disse ela, sem tirar os olhos de Helena. — A que você jurou que era erro.

Ele passou o dedo pelo papel, os lábios quase sem mexer.

— “Reserva técnica... acervo do museu... autorização de consulta cruzada...” — A voz saiu baixa, mas suficiente para Mara ver o resto na cara dele. — Não foi erro. Foi inserção.

Helena deu um passo curto, duro.

— Isso está fora de contexto.

— Fora de contexto é o que vocês fazem com tudo — Mara cortou. O coração batia limpo, sem espaço para medo bonito. — Quem assinou o número do protocolo?

Helena apertou a pasta contra o peito, como se o plástico pudesse bloquear a pergunta.

Lívia aproveitou o segundo exato em que ninguém respondeu. Aproximou o celular, o rosto dela limpo, quase simpático, e falou para a audiência invisível:

— Vocês estão vendo. Ela força acesso, invade setor e depois inventa tese. É assim que ela trabalha.

Os comentários no visor subiram em cascata. Um nome repetido, depois outro, depois o da própria Mara como se ela fosse uma praga local.

Foi então que Padre Caio apareceu na extremidade do corredor, parado antes de entrar de vez, como quem já sabia que chegava tarde. A batina escura pegou um reflexo frio do fluorescente. Ele olhou para o celular de Lívia, depois para a pasta de Helena, depois para Mara.

— Não era fé — disse ele, com a voz cansada de quem tinha guardado aquilo tempo demais. — O santuário guardava versões. Registros. O que a cidade precisava esquecer e o que alguém não podia deixar sumir.

O corredor inteiro pareceu prender o ar. Até Helena perdeu, por um instante, a linha polida do rosto.

Mara sentiu o encaixe se fechar dentro dela: relíquia, compartimento, selo interno do museu, consulta cruzada, versão guardada. Não era desordem. Era método. Um método sujo, antigo e protegido por gente demais.

— Então diga o nome do protocolo — ela falou.

— Mara — Davi avisou, baixo, sem olhar para ela.

— Não. Agora eu quero o nome.

Helena virou o corpo um pouco, já calculando como barrar a cena sem parecer que barrava a verdade. Lívia aumentou o zoom, faminta pela queda. Caio fechou os olhos por um segundo, como quem escolhe a própria vergonha.

— Reserva técnica 17-B, ligação interna com o acervo do museu — disse ele. — E o nome que aparece no vínculo... eu não devia dizer aqui.

Mara estendeu a mão.

— Então diz onde.

A resposta veio como a própria armadilha: não em voz, mas no aviso tenso de um passo atrás. Um homem do setor de apoio, crachá torto, câmera no bolso da camisa, recuou meio segundo tarde demais. Mara viu a lente. Viu também a mão dele se mover para apagar algo no celular.

Observador.

Mais perto do que devia.

A prova final estava pronta no papel e no corpo dela, mas ali, naquele corredor, a vitória já tinha custo. Mara ergueu o queixo na direção do celular de Lívia, assumiu o foco e tomou a decisão que não podia mais adiar.

— Vai ao vivo direito — disse, encarando a câmera. — Mostra o carimbo interno do museu. Mostra a assinatura inserida. Mostra quem tentou esconder isso dentro do santuário.

Lívia sorriu só com a boca, achando que tinha vencido por tê-la empurrado para a frente.

Mara então entrou no ar com a prova final, mas a vitória cobrou uma perda no mesmo segundo em que a transmissão ganhou força: alguém no círculo próximo baixou o olhar e respondeu por mensagem antes mesmo da acusação terminar de sair da boca dela.

Capítulo 12 — O nome do protocolo não devia existir

A porta da sala reservada do arquivo-adjunto tremia com duas pancadas secas do lado de fora, e a voz de Helena veio filtrada pelo metal, precisa demais para ser só ameaça.

— Quatro minutos, Mara. Depois eu te enquadro por quebra de perímetro e fraude documental.

O relógio do celular de Mara, preso entre os dedos suados, marcava 6 dias, 1 hora e 18 minutos para a transferência ao museu. O prazo não tinha saído dali; o prazo só estava se fazendo mais cruel.

Padre Caio permaneceu sentado, mãos unidas como se ainda estivesse no confessionário, a gola branca impecável demais para alguém que admitira, minutos antes, que o santuário guardava versões e não fé. Na mesa, a pasta amassada do arquivo-adjunto exibia o mesmo selo interno do museu que Mara já tinha visto no embrulho da relíquia. E agora, bem ao lado, havia o número de protocolo rabiscado em lápis, meio apagado por uma borracha nervosa.

Mara puxou a pasta para perto.

— Fala o nome — disse, sem elevar a voz. — Quem assinou a reserva técnica?

Caio fitou o papel como quem encara uma hóstia profanada.

— Eu não sou o dono desse nome.

— Não. Você só guardou ele.

Do outro lado da porta, passos. O som de uma sola firme no corredor. Helena estava chamando alguém pelo rádio, baixo e rápido. O tipo de coordenação que antecede apreensão, não conversa.

Davi, encostado na parede oposta, baixou o celular para perto do rosto e murmurou sem tirar os olhos da tela.

— A Live da Lívia já puxou teu nome de novo. Ela tá dizendo que você invadiu setor restrito com prova falsa. Tem gente repetindo isso nos grupos do bairro.

Mara nem olhou para ele.

— Então lê. Em voz alta. A assinatura parcial.

Davi hesitou só o suficiente para denunciar que ainda tentava salvar a própria imagem dentro daquela lama. Mas leu.

— “Consulta cruzada autorizada… reserva técnica vinculada ao Museu…” — ele travou no final, engoliu em seco e terminou: — “…protocolo interno 4-19-C.”

Caio fechou os olhos. Esse quase nada de culpa foi mais útil que qualquer sermão.

— Diga o nome completo — Mara pediu.

Ele respirou como se fosse escolher entre ajoelhar ou mentir.

— Eu não posso.

— Pode, sim. Está atrasando o que já aconteceu.

Helena bateu mais forte. Agora não era só pressa; era aviso.

— Mara, abre. Eu formalizo sua prisão em flagrante e ainda recolho isso como prova de manipulação de acervo.

A palavra prova fez Caio estremecer. Mara percebeu o reflexo antes da negação. Não era só medo de Deus. Era medo de reconhecer a mão humana por trás do mecanismo.

— O santuário — ela disse, devagar, pressionando cada sílaba — servia para esconder o quê?

Caio ergueu os olhos. E, pela primeira vez, a linguagem de devoção falhou sem ter para onde correr.

— Registros que não podiam ficar na reserva técnica oficial. Versões. Anexos. Nomes que precisavam sumir antes de virar peça. — Ele engoliu. — Havia um circuito. Santuário, depois arquivo provisório, depois o museu. Algumas coisas passavam por aqui para ganhar tempo. Ou para perder testemunha.

Mara sentiu o estômago afundar com a precisão da frase. Não era só a relíquia. Não era só o compartimento no verso. Havia uma rota clandestina dentro da cidade inteira, com carimbo, altar e gabinete. Um corredor moral em que alguém fazia a verdade vestir outra roupa antes de enterrá-la.

— Quem começou isso? — ela perguntou.

Caio demorou demais.

Do corredor veio um ruído de mochila, metal batendo em metal. Helena estava preparando algo. Davi levantou o celular de novo, a luz branca refletindo no olho tenso.

— Mara… — ele disse, mais baixo, quase uma súplica. — Se você sair com isso agora, ela enquadra. E a Lívia vai vender sua saída como confissão.

— Ela já vendeu — Mara respondeu.

E então viu a borda da anotação, meio escondida sob o grampeador quebrado da mesa: “R.T. Valença, 4-19-C”. Valença. O nome vinculado ao protocolo. Não o nome de Lívia, mas o sobrenome suficiente para fazer a cidade inteira cheirar sangue e parentesco.

Caio percebeu a direção do olhar dela e empalideceu.

— Isso não devia existir no papel — ele sussurrou.

— Mas existe.

Helena forçou a porta com o ombro. A trava gemeu.

Mara já tinha o comprovante escondido na costura da blusa, queimando contra a pele. Tinha o número. Tinha o nome. Tinha o eixo do esquema. O que ainda não tinha era saída limpa.

Ela abriu o aplicativo da transmissão antes que a porta cedesse.

— Você vai falar no ar — disse a Caio, e o sacerdote ergueu a cabeça com horror puro. — Ou eu falo por você. Escolhe rápido.

A trava estalou.

Mara iniciou a live. O visor subiu com a contagem registrada ao vivo e o rosto dela entrou na tela ao mesmo tempo em que Helena irrompia na sala.

— Aqui está o protocolo — Mara disse, erguendo o papel com o nome 4-19-C visível para a câmera. — E aqui está o que tentaram esconder entre santuário e museu.

Helena avançou um passo, mas parou ao perceber a tela aberta, o áudio captando tudo, inclusive a respiração pesada do corredor.

Caio, encurralado, falou antes que pudesse se arrepender:

— O santuário guardava versões, não fé.

A frase cortou o ar e atravessou a transmissão. Mara viu, no canto da tela, os comentários explodirem. Viu também, atrás de Helena, um homem do arquivo que ela não tinha notado antes — crachá virado para dentro, olhos baixos demais para serem inocentes. Ele recuou um meio passo, e Mara entendeu na mesma hora: alguém ali já sabia que ela tinha encontrado o compartimento.

Helena apontou para ela, agora sem polidez.

— Desliga isso.

— Tarde — Mara respondeu, sem tirar o dedo da tela.

Mas o custo veio junto da vitória. Davi, ao lado, fitava o nome no protocolo como se aquilo o atingisse por dentro. Não por surpresa. Por reconhecimento.

Ela viu a mudança nele e soube, com a clareza feia de quem aprende tarde demais, que a confiança entre os três tinha acabado de perder uma peça irreversível.

Capítulo 12 — A consulta cruzada vira armadilha

O relógio na tela do terminal já tinha afundado mais seis minutos desde a última tentativa. 6 dias, 1 hora e 12 minutos para a transferência ao museu. Mara viu o número piscar no vidro escurecido do arquivo-adjunto enquanto Davi encaixava o crachá emprestado no leitor com a mão um pouco úmida demais.

— Última chance — ele murmurou, sem olhar para ela. — Se o sistema me reconhecer de novo, ele entrega o log inteiro.

— Então não faça duas vezes — Mara respondeu.

A área de circulação estava cheia demais para chamar de corredor e estreita demais para chamar de sala. Pessoas passavam com pastas, celulares na mão, olhos treinados para fingir que não ouviam. Em algum lugar atrás da divisória de acrílico, uma voz de atendimento repetia protocolo, protocolo, protocolo, como se a palavra pudesse apagar o que já tinha sido carimbado por dentro.

Davi digitou a credencial cruzada que Helena tinha deixado correr no limite do aceitável, uma concessão que agora parecia armadilha com verniz de procedimento. A tela abriu uma janela cinza, depois outra, e então travou por um segundo longo o bastante para Mara sentir o músculo do pescoço dele endurecer.

No canto superior direito surgiu o aviso: CONSULTA REGISTRADA EM TEMPO REAL.

— Ela está vendo — Mara disse.

— Eu sei.

O terminal emitiu um bip seco. Uma lista parcial apareceu, linhas truncadas, campos ocultos. Davi desceu com o dedo até o número do protocolo de reserva técnica. Não havia nome completo, só um encaixe de letras, carimbos e um vínculo que parecia ter sido raspado e refeito: ARCIVO-LINHA 4 / REMESSA INTERNA / ASSINATURA: H. A.

Mara inclinou o rosto. O coração não acelerou; ficou frio.

— Lê.

Davi engoliu em seco e leu baixo, quase sem voz:

— “Protocolo de reserva técnica vinculado a… Álvaro Nóbrega.”

O sobrenome bateu nela como uma porta fechando. Caio não tinha mentido sobre o santuário guardar versões. Ele só tinha escolhido qual parte da verdade ainda podia ser dita em público.

Antes que Mara respondesse, a tela saltou vermelha.

ACESSO MARCADO. TENTATIVA DUPLA. RISCO INTERNO / FRAUDE DOCUMENTAL.

— Droga — Davi sussurrou.

Do outro lado da circulação, uma presença feminina parou sem parecer parar. Lívia Valença segurava o celular na altura do peito, a tela já acesa, o rosto pronto para o tipo de expressão que transforma suspeita em produto.

— Agora vocês me deram o nome — ela disse, doce demais para ser inocente. — Isso vale ao vivo.

Mara viu o reflexo do live aberto no vidro do terminal: comentários subindo em enxame, nomes repetidos, gente pedindo “a história inteira”, gente pedindo “a versão da delegada”. A narrativa já estava endurecendo enquanto ainda nascia.

Helena apareceu do lado oposto, impecável e sem pressa, como se o corredor inteiro estivesse sob sua alçada desde sempre.

— Encosta desse terminal, Mara, e eu encerro isso como quebra de perímetro — falou, sem elevar a voz. — Com isso e com a fraude documental que seu amigo acabou de deixar registrada.

— “Meu amigo” não — Davi cortou, rápido demais.

Helena olhou para ele como quem mede uma peça defeituosa.

— Jornalista instável, então.

O humor dela não chegava aos olhos. Os olhos estavam presos no nome que Davi acabara de puxar. Ela também tinha visto.

Mara sentiu o peso do comprovante escondido contra a pele, onde a costura do forro mantinha o papel dobrado como uma farpa. O arquivo clandestino com selo interno do museu. A prova final. Se esperasse mais um minuto, Helena tomava o terminal; se saísse dali, perdia o nome; se entrasse no ar, virava alvo inteiro.

Lívia já estava narrando.

— Pessoal, tem um protocolo vinculado a Á… — ela travou no nome e sorriu para a câmera, corrigindo a própria fome. — A gente acabou de confirmar que houve consulta cruzada de reserva técnica. E tem gente muito nervosa com isso.

Mara avançou um passo, mas Helena moveu a mão e dois agentes da circulação bloquearam o vão sem precisar tocar nela. Foi aí que Padre Caio surgiu na abertura da porta lateral, sem fôlego e sem a máscara de calma. Viu a tela. Viu o nome. Viu Lívia transmitindo.

E escolheu falar tarde demais para salvar a própria covardia.

— O santuário guardava versões — disse Caio, a voz falhando no meio, como se cada sílaba raspasse nele. — Não fé. Versões, registros, substituições.

O corredor inteiro pareceu apertar.

Mara olhou para Davi. Ele tinha a cara de quem acabara de perceber que a credencial que o deixara entrar também o marcava. Helena já estava digitando algo no telefone, sem tirar os olhos dela. E Lívia, brilhando de ganho, empurrava a live para cima, para fora, para a cidade inteira.

Mara não esperou o resto do sistema. Tirou o comprovante do corpo, dobrou-o de modo que só ela viu o selo interno e ergueu o celular com a outra mão.

— Se querem a versão — disse, e a própria voz saiu mais firme do que ela esperava —, vão ter a minha.

Ela entrou no ar.

No instante em que o vídeo abriu, a tela mostrou o comprovante, o selo do museu, o número do protocolo e o nome de Álvaro Nóbrega. Os comentários explodiram. Helena deu um passo, depois outro, tarde demais para impedir o vazamento. Davi ficou imóvel ao lado do terminal, olhando para o próprio reflexo no vidro como se tivesse acabado de perder o direito de dizer que estava só ajudando.

A vitória veio com o preço junto: no canto da transmissão, o nome de Davi apareceu como quem nunca deveria estar ali. E Mara entendeu, sem precisar ouvir de ninguém, que alguém no círculo deles havia deixado o rastro aberto para o sistema — ou para Lívia.

Quando a tela encheu de novas marcações e o relógio continuou correndo, Mara soube que a prova tinha saído do arquivo.

Mas a confiança, não.

Capítulo 12 — Ao vivo, antes que a versão feche

O relógio no canto da tela de Lívia marcava 6 dias, 1 hora e 18 minutos quando Helena apareceu na porta frontal do arquivo-adjunto com dois agentes e a voz de quem já tinha decidido o crime antes de ouvir a defesa.

— Última chance, Mara. Um passo errado e eu enquadro você por quebra de perímetro e fraude documental.

Mara não recuou. Sentia o comprovante escondido contra a pele, duro como uma moeda quente, e o peso dele já parecia dívida. Ao lado dela, Davi manteve os olhos baixos por meio segundo — o tempo exato de quem calculava o preço da própria permanência ali.

Lívia, que não perdia nada, inclinou o celular e aproximou a câmera do rosto de Helena como se estivesse oferecendo palco à própria ameaça.

— Repete devagar, delegada — disse ela, doce demais. — A cidade gosta de ouvir uma autoridade falando em voz limpa.

O áudio subiu no alto-falante improvisado do celular. Comentários começaram a correr na tela em uma enxurrada de nomes tortos, apelidos e sentenças prontas. Mara viu seu rosto virar quadro em tempo real, mas não desviou. Abriu a mão só o bastante para mostrar a cópia do protocolo que Davi tinha puxado: o número de reserva técnica do museu, o selo interno no canto e a assinatura parcial que ele tinha lido em voz baixa no corredor, sem tentar se proteger dela.

— Não foi erro — disse Mara, apontando para o papel. — Foi autorização de consulta cruzada. Inserida por dentro.

Helena apertou a mandíbula. O rosto continuou polido, mas a polidez agora tinha trinca.

— Documento sem cadeia de custódia. Prova tocada por uma pessoa já marcada como risco interno. Você quer fazer isso no grito, diante de uma transmissão pirata?

— Não é pirata se o público já sabe o seu nome — respondeu Lívia, e um sorriso breve lhe cortou a boca. Ela estava empurrando a cena para a própria moldura, tentando transformar Mara em suspeita e Helena em ordem.

Mara esperou o intervalo exato entre uma respiração e outra. Tirou do bolso interno da jaqueta a foto do embrulho com o carimbo aplicado por dentro. Colocou a imagem sob a lente de Lívia, depois virou o papel para a câmera principal, sem dar chance de recuo.

— Esse selo saiu do museu. Antes de chegar aqui. E isso aqui — ela bateu no verso da foto, onde a cavidade da relíquia tinha sido registrada — mostra que a peça foi violada antes da apreensão. No arquivo, no museu, no santuário... sempre a mesma mão mexendo no que não devia existir.

Helena fez um gesto mínimo para os agentes. Um deles avançou.

Davi moveu-se antes dele, não na frente de Mara, mas ao lado. Foi um gesto pequeno, quase feio, sem heroísmo. Só custo.

— Se tocar nela agora, isso sai no ar inteiro — disse ele.

Helena olhou para Davi como quem vê um vidro sujo atrapalhando o reflexo. — Você já escolheu, jornalista. Só ainda não percebeu com quem.

Nesse momento, a porta lateral se abriu com força demais, e Padre Caio entrou segurando uma pasta amassada contra o peito, como se ela queimasse. Seu olhar passou rápido demais por Mara, rápido demais por Lívia, e demorou um segundo a mais em Davi. Um segundo que Mara não gostou.

— Chega — disse o padre, sem fôlego. — O santuário guardava versões. Não fé. Nunca foi fé.

A frase caiu no círculo como uma lâmina limpa. Até Lívia deixou a câmera tremer por um instante.

Mara virou o corpo inteiro para ele.

— Então diga o nome. Quem recebeu a consulta cruzada? Quem puxou o protocolo?

Caio fechou os olhos por uma fração, derrotado antes de admitir.

— Álvaro Nóbrega. O registro estava ligado à reserva técnica. O que ficou fora do livro foi guardado para não morrer no fogo da cidade.

O nome bateu no peito de Mara com a força exata do que ela vinha perseguindo desde o primeiro arquivo. Não era só um nome. Era a ponte entre a relíquia, o museu e a gaveta clandestina que alguém tentara enterrar sob procedimento.

Lívia já estava falando por cima, tentando trocar a verdade pela moldura.

— Vocês ouviram. Tem nome, tem padre, tem documento. Isso aqui não é acusação, é encenação.

Mas o comentário na tela tinha mudado. Alguém, entre os perfis e as mensagens, reconheceu a pasta de Caio. Outra pessoa marcou o carimbo interno. Um terceiro escreveu o nome de Helena com um símbolo de fogo.

Mara não esperou a matéria fechar.

Ela ergueu a foto do selo interno e o comprovante contra a câmera, tão perto que a imagem ocupou a tela inteira.

— Arquivo clandestino. Reserva técnica do museu. Protocolo de consulta cruzada. Tudo isso saiu daqui, não de boato. E entrou no santuário para esconder versões da mesma história.

Helena tentou avançar, tarde demais. A transmissão já tinha partido.

Só então Mara viu o detalhe que doeu mais que a ameaça: Davi, no reflexo da porta de vidro, tinha virado o rosto um instante antes de olhar para ela de novo. Um gesto pequeno, impossível de desver. Como se tivesse escolhido, também ele, um lado que ainda não era claro.

A prova estava no ar. A cidade já estava mordendo a revelação. Mas a vitória veio com a primeira perda que não dava para desfazer: Mara percebeu que, dali em diante, pelo menos uma pessoa perto demais dela nunca esteve do lado certo o tempo todo.

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