O Amanhã sem Feed
O zumbido eletrônico do Hospital Público Central morreu com um estalo seco, como um osso quebrando. No palco improvisado, as luzes de LED que pulsavam no ritmo frenético do Feed — o batimento cardíaco daquela monstruosidade digital — apagaram-se de uma vez. Rafael Coutinho, o homem que há minutos era um deus da opinião pública, ficou banhado apenas pela luz fria e estática do teto. Ele tateou o console, os dedos trêmulos golpeando botões inúteis. O sinal estava morto. O relicário, agora um invólucro de metal inerte em minha mão, havia drenado a alma daquela transmissão.
O silêncio que se seguiu foi absoluto, mais aterrorizante que o barulho das notificações que, até segundos atrás, ditavam a realidade do país. A multidão, antes uma massa faminta por sangue e entretenimento, parou. O vácuo de poder deixado pela queda do Feed não era paz; era uma inquietação primitiva, um choque coletivo.
— Você não entende o que fez — Rafa sibilou, a voz rouca, desprovida da amplificação que o tornava intocável. Seus olhos, antes fixos na lente da câmera, agora buscavam os meus, procurando uma brecha de medo. — Sem o Feed, eles não têm o que assistir. E quando a plateia fica entediada, Lucas, ela começa a procurar por culpados. E você é o único que sobrou no palco.
Não respondi. Ameaças de um homem que perdeu seu império não valiam o ar que ele gastava. Deixei o relicário cair sobre o tablado, uma prova descartada, e mergulhei na massa de corpos. O corredor da Ala de Isolamento era um labirinto de névoa branca, disparada pelos alarmes de incêndio que Helena ativara. Eu precisava alcançá-la antes que a segurança, agora sem ordens diretas do Diretor, decidisse que a melhor forma de conter o escândalo era eliminar as testemunhas.
Encontrei Helena encostada em uma maca, o rosto marcado por um corte na têmpora, mas com um sorriso de triunfo gélido.
— Você conseguiu — ela disse, a voz fraca, enquanto eu a puxava para longe das câmeras de segurança que ainda giravam em falso.
— Nós conseguimos — corrigi, jogando um casaco sobre seus ombros para esconder o uniforme hospitalar. — Mas o Diretor sabe. Ele permitiu que chegássemos aqui. Foi um plano orquestrado desde o início.
— O Diretor é um fantasma agora, Lucas. Assim como o sistema da sua mãe — Helena puxou o celular, onde uma barra de progresso indicava a transferência final dos arquivos do irmão. — Ela não estava apenas escondendo os crimes. Ela estava corrompendo o banco de dados por dentro. O nome dele não está como 'óbito'. Está como 'transferido'. Ela tentou implodir a própria criação antes de ser silenciada.
O estômago revirou. Minha mãe, a mulher que eu vi como vítima da burocracia, fora a arquiteta de um sistema que usava vidas humanas como moeda, mas que, no último segundo, tentara destruir o monstro que ajudou a parir. Saímos por uma saída de serviço, deixando o hospital em chamas metafóricas de escândalo público.
Horas depois, em um esconderijo na zona portuária, o silêncio era a única constante. O ar do Rio de Janeiro trazia o cheiro de maresia misturado à fumaça de pneus queimados. Não havia mais o barulho das notificações, nem a pressão de uma contagem regressiva que definia minha sobrevivência. Olhei para o celular. A tela, antes infestada de ameaças, exibia uma interface limpa, quase estéril.
Helena processava a queda do império que a mantivera prisioneira. Eu sabia que o jornalismo tradicional não era mais o meu lugar; eu não queria mais relatar a verdade, queria caçá-la.
Um som metálico rompeu o silêncio no meu aparelho: uma notificação criptografada. Um canal paralelo. Uma nova relíquia, desta vez em São Paulo, acabara de ser registrada no sistema de rastreamento social. O Feed caíra, o espetáculo fora interrompido, mas o vácuo deixado pelo silêncio era mais assustador que o barulho das notificações. Sorri, sentindo o peso da caçada recomeçar. O relógio, agora, era meu.