O Ritual de Transferência
O zumbido da serra circular contra o batente da porta do gabinete do Diretor não era apenas ruído; era o tiquetaque de uma sentença. Lucas Mendes sentiu o suor frio colar a camisa às costas enquanto seus dedos, trêmulos, forçavam a conexão do relicário ao terminal central. A tela à sua frente piscava em um verde doentio: 62%. Cada ponto percentual custava um segundo de vida que ele não tinha.
— Você está apenas seguindo o roteiro, Lucas — a voz do Diretor ecoou pelo interfone, desprovida de qualquer urgência. — Sua mãe desenhou cada linha desse código para que fosse indestrutível. Ela sabia que a verdade, quando isolada, é apenas um suicídio burocrático. Você é o bode expiatório perfeito para encerrar o ciclo.
Lucas ignorou o sarcasmo, focando na interface. O sistema de criptografia exigia uma chave de autorização. Ele digitou a data de nascimento de sua mãe. O zumbido de erro cessou, substituído pelo clique seco de um acesso liberado. O Diretor não estava tentando impedi-lo; ele o guiava para a jaula. A porta cedeu com um estrondo de metal retorcido e faíscas. Lucas não olhou para trás. Ele mergulhou na escuridão dos dutos de ventilação, o relicário pressionado contra o peito como um escudo sagrado, enquanto o progresso saltava para 75%.
O ar nos dutos tinha gosto de metal oxidado e desinfetante vencido. Ele rastejava, o corpo trêmulo pelo esforço. Abaixo, o som de botas militares ecoava. Ele abriu a transmissão de Rafa Coutinho em um dispositivo portátil. A tela tremeluziu. Rafa estava em um estúdio improvisado na ala de isolamento, a câmera focada em Helena Vargas, presa a uma cadeira.
— A nossa arquivista-chefe é a ladra que escondeu os registros do projeto de limpeza — a voz de Rafa, carregada de um escárnio calculado, preencheu o duto. — Lucas, se você estiver ouvindo, o tempo acabou. Cada segundo escondido é um segundo a menos de ar para a Dra. Helena.
Lucas sentiu o sangue gelar. Helena era a peça final para legitimar a fraude. Ele alcançou o painel de controle do setor de segurança. Com o relicário, ele forçou um curto-circuito, descarregando a carga residual do dispositivo no sistema. Alarmes dispararam, luzes estroboscópicas inundaram os corredores e as travas magnéticas das celas de isolamento foram liberadas com um estrondo ensurdecedor. No caos, ele emergiu dos dutos, correndo para a ala de isolamento.
Ao chegar, encontrou Helena, mas o relicário começou a emitir uma luz pulsante, revelando nomes de pacientes fantasmas projetados nas paredes. Helena, com o rosto pálido, sussurrou:
— Lucas, o relicário não é apenas um arquivo. Ele é o servidor mestre. Se você terminar a transferência, o nome do meu irmão e o da sua mãe serão expostos para o mundo inteiro. Eles não vão apenas te prender; vão apagar sua existência.
O visor marcava 90%. A segurança estava a segundos de distância. O relicário brilhava intensamente, projetando a prova final — a lista que ligava o Diretor, a linhagem de sua mãe e o esquema de silenciamento de Rafa Coutinho. Lucas percebeu a verdade brutal: para expor o sistema, ele precisava se tornar o servidor. Ele não podia mais fugir. Ele tinha que carregar aquela prova para o palco da live de Rafa, transformando seu próprio corpo na arma que destruiria o Feed. O brilho do relicário atingiu o ápice, revelando a lista completa enquanto o som das botas da segurança parava bruscamente do lado de fora da porta da ala de isolamento.