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Chapter 8: O Último Vínculo

Elias confronta Beatriz sobre sua traição, revelando que ela agiu por medo de perder o legado familiar. O Feed expõe Elias publicamente como um terrorista, forçando-o a fugir. Sozinho, Elias busca refúgio no cemitério onde seu pai está enterrado, descobrindo que o servidor central está oculto sob o mausoléu da família.

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O Último Vínculo

O zumbido das sirenes lá fora não era o pior som no ateliê; era o silêncio de Beatriz. O Feed no celular de Elias piscava com a notificação de um vídeo vazado: o rosto dela, nítido e inegável, entregando o protocolo de acesso à rede em troca de uma promessa de imunidade para a linhagem da família. Elias girou a caixa de ébano entre as mãos, sentindo o peso frio da relíquia. Faltavam 71 horas e 45 minutos para a limpeza total dos servidores, e agora ele não tinha mais aliados.

— Você vendeu a nossa última chance por um nome limpo que eles vão apagar de qualquer jeito — disse Elias, a voz cortante, sem desviar os olhos do monitor do servidor.

Beatriz estava parada perto da máquina de costura industrial, as mãos trêmulas escondidas nos bolsos do avental. O ateliê, um subsolo úmido cheirando a óleo e poeira, parecia ter encolhido.

— Eles me deram uma escolha, Elias. Ou o seu fim absoluto, ou o meu silêncio — ela confessou, com a dignidade de quem já aceitou a própria ruína. — Eles sabiam que a relíquia era a chave, mas não conseguiam decifrar a inscrição final. Eles precisavam de você, e eu só precisava que eles parassem de caçar o que restou da nossa casa.

Elias sentiu o estômago revirar. Não era ganância; era um medo ancestral, a necessidade de preservar um legado que, na verdade, já estava morto. A traição de Beatriz não era um ato de maldade, mas um reflexo da fragilidade que o sistema explorava com precisão cirúrgica. Ele abriu o compartimento oculto da relíquia, revelando o hardware que carregava o fim de sua própria história. O contador no visor holográfico flutuando sobre a mesa de corte marcava 71 horas e 45 minutos para a "limpeza" definitiva. Era o tempo que restava até que cada byte de sua linhagem fosse apagado, transformando gerações de segredos em um vazio digital absoluto.

— Você sabia — disse Elias, a voz baixa, o olhar fixo no mecanismo. — Sabia que o custo não era apenas o servidor. Era a nossa existência.

— Eu tentei ganhar tempo, Elias. Eles me chantagearam com a sua vida, com cada rastro que você deixou. Eu não tive escolha.

Antes que ele pudesse responder, um urro digital reverberou pelo ateliê. O Feed atualizou o feed global: um vídeo em 4K mostrava Elias, com o rosto iluminado por um brilho azulado, inserindo um código que, na montagem, parecia a detonação de um dispositivo em uma infraestrutura pública. A legenda era clara: O Terrorista da Linhagem. Ao lado, o vídeo de Beatriz entregando o envelope aos executores completava o espetáculo. A traição não era mais uma suspeita; era um entretenimento público. O som de botas pesadas batendo contra o metal da escada externa cortou o ar.

Elias não esperou. Ele chutou a grade de ventilação lateral, um túnel estreito que dava para o beco dos fundos. Ele não olhou para trás; Beatriz era agora uma peça descartada pelo próprio jogo que ela tentara manipular. Ele estava sozinho, e o cerco se fechava com a brutalidade de quem não aceita falhas.

A chuva em São Paulo misturava a fuligem das chaminés industriais com o sangue invisível que o Feed espalhava pelos telões da cidade. Elias parou diante do portão de ferro forjado do cemitério municipal, o metal frio vibrando sob seus dedos. Faltavam 70 horas. O cemitério, com suas alamedas desertas e o cheiro de terra molhada, era o único lugar onde o algoritmo não ousava rastrear sua assinatura genética imediatamente.

Ele caminhou até o mausoléu de seu pai, uma estrutura de granito cinzento que ele jurara nunca mais visitar. A relíquia em suas costas começou a emitir um zumbido baixo, uma frequência que ressoava com a pedra fria. Ao tocar o baixo-relevo do brasão da família, o sistema de segurança do servidor central despertou sob o solo. Ele não estava apenas no túmulo de seu pai; ele estava no coração da máquina que devorava sua linhagem, pronto para o último sacrifício.

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