A Fenda no Império
O ar nos bastidores do Salão Lemos era denso, saturado pelo cheiro de verniz industrial e o desespero de uma falência que não esperaria o amanhecer. Beatriz Lemos caminhava de um lado para o outro, o estalo de seus saltos contra o mármore soando como uma contagem regressiva. O leilão, antes uma vitrine de prestígio, tornara-se uma armadilha.
— Você não tem ideia do que fez — ela disparou, a voz trêmula, mas cortante. — Gusmão não é apenas um investidor. Ele é o dono deste mercado. Se aquela peça não for vendida, a Casa Lemos será liquidada judicialmente antes do nascer do sol.
Arthur Valente, imóvel como uma estátua de granito, observava a herdeira. Ele não via apenas uma mulher em pânico; via a única peça no tabuleiro que, se bem posicionada, poderia derrubar o rei. Ele estendeu um envelope pardo, o papel amarelado pelo tempo, com a caligrafia firme do falecido pai de Beatriz.
— Seu pai não foi apenas um negociante. Ele foi um arquivista — Arthur disse, a voz baixa, desprovida de qualquer hesitação. — Ele sabia que Gusmão não compraria uma peça sem garantir que o certificado de procedência fosse tão falso quanto o polímero que compõe esse dragão. Leia a página três. O ponto de fusão da resina aplicada na base foi testado em 2018. Gusmão usa esse mesmo lote para lavar dinheiro de licitações públicas. Isso não é apenas uma farsa; é uma sentença de prisão.
Beatriz parou. Seus olhos percorreram as linhas do documento, e a cor drenou de seu rosto. Ela compreendeu: o dossiê não era apenas uma prova, era uma alavanca.
Eles tentaram retornar ao salão, mas o corredor de serviço estava bloqueado. Uma parede de homens de preto, a elite de Gusmão, fechava o caminho. O líder, um brutamontes com uma cicatriz na sobrancelha, deu um passo à frente.
— O ex-capitão acha que ainda manda em algo? — ele zombou. — Você é um pária, Arthur. Volte para o seu buraco antes que tenhamos que arrastá-lo.
Arthur não recuou. Ele se moveu com a precisão de uma lâmina desembainhada. Um impacto seco ecoou no corredor; com um toque cirúrgico no ponto de pressão do pescoço, o líder desabou. Os outros dois seguranças hesitaram, o choque travando seus músculos por um segundo crucial. Arthur usou o impulso do segundo atacante contra ele mesmo, girando e aplicando uma alavanca que o forçou a recuar, abrindo caminho para o salão principal.
Lá dentro, o clima era de tensão insuportável. Ricardo Gusmão tamborilava os dedos sobre o mogno do púlpito, seus olhos varrendo a plateia com impaciência predatória. Ele queria o martelo batido. Ele queria o silêncio sobre a farsa de resina.
— Beatriz, o tempo é o seu ativo mais escasso — Arthur murmurou ao seu lado. — Se você não expuser a falsificação agora, a Casa Lemos será liquidada judicialmente até o amanhecer.
Beatriz olhou para os investidores que, por anos, a trataram como um acessório descartável. O medo era uma corrente, mas o dossiê em suas mãos era uma lâmina. Ela subiu ao púlpito. O martelo de mogno pairava no ar.
— O lance é de dez milhões — a voz de Beatriz ecoou, firme. — Contudo, antes de encerrar, há uma irregularidade técnica que precisa ser corrigida. O dragão imperial é um polímero, Gusmão.
O silêncio no salão foi absoluto, cortante como vidro quebrado. Gusmão levantou-se, o sorriso felino desaparecendo. Ele sinalizou para seus homens, que convergiram para o púlpito, ignorando os convidados. Arthur saltou a barreira, posicionando-se entre Beatriz e o cerco. Ele não recuou, pronto para a reversão que mudaria a hierarquia da cidade para sempre.