Sombras no Topo
O ar no escritório da Alencar estava rarefeito, carregado com o peso de uma vitória que, em vez de alívio, trouxe um frio na espinha. Arthur Vale observava Beatriz. Ela não celebrava; encarava a pasta de documentos sobre a mesa com uma palidez que desmentia a recente conquista da licitação municipal.
— Sampaio não tinha fundos para sustentar essa última investida — Arthur disse, a voz cortante, desprovida de qualquer euforia. — Ele foi financiado por uma estrutura que ignora a Receita Federal e o prestígio local. Sampaio era apenas um escudo descartável. Agora que ele caiu, o escudo foi descartado.
Beatriz levantou os olhos, a mão ainda sobre o contrato que a tornava a líder incontestável do mercado. — Se Sampaio era um peão, quem move as peças agora? O comitê de licitações está em pânico, Arthur. Eles cancelam reuniões como se esperassem um comando que não vem de mim.
Arthur caminhou até a janela, observando o tráfego lá embaixo. A cidade parecia normal, mas ele sentia a pressão. Um envelope pardo, deixado sobre sua mesa naquela manhã, continha apenas uma coordenada e um aviso: “O jogo de jade terminou. O jogo de sangue começou.”
Seu telefone vibrou. Um vídeo de baixa resolução: Beatriz sendo forçada a entrar em um SUV blindado em um estacionamento subterrâneo. O rosto dela não demonstrava pânico, apenas uma determinação fria. Ela reconhecia os captores. Arthur identificou a insígnia na lapela do condutor: o símbolo do Consórcio Valerius, uma entidade que ele acreditava estar adormecida, mas cujos tentáculos agora estrangulavam a cidade.
— Você cometeu um erro de cálculo, Sampaio — murmurou Arthur para a sala vazia. A mente por trás daquele sequestro não queria o dinheiro dos Alencar; queriam o segredo industrial das patentes de mineração guardadas no cofre digital de Beatriz. Ao sequestrá-la, forçavam Arthur a revelar sua verdadeira face.
Arthur não perdeu tempo. Ele entrou em modo de operação, o estrategista que a cidade havia esquecido. Em minutos, rastreou o sinal do dispositivo de emergência oculto no relógio de Beatriz. O alvo estava em um armazém desativado no cais, uma zona neutra onde a lei local não chegava. Ele não precisava de um exército; precisava de precisão.
Ao chegar, encontrou o ambiente vigiado por homens de terno cinza, profissionais que não se intimidavam. Arthur avançou, não com a força bruta que esperavam, mas com a desconstrução tática de suas defesas. Ele desativou os sistemas de segurança do armazém antes mesmo de ser detectado, cortando a comunicação dos guardas com a central.
Quando entrou, encontrou Beatriz amarrada, mas intacta. O líder do grupo, um homem de semblante gélido, sorriu.
— O Estrategista Vale. Estávamos curiosos para saber se você ainda tinha o toque — disse o homem. — Você destruiu Sampaio, mas ele era apenas nosso estagiário. O Consórcio não aceita derrotas.
Arthur não respondeu com palavras. Em um movimento fluido, desarmou o primeiro guarda e utilizou a arma para destruir o painel de controle da porta, liberando Beatriz. O som do metal ecoou como um trovão. Ele a puxou para trás de uma coluna, o olhar fixo no inimigo.
— Sampaio era um peão, sim — Arthur disse, a voz cortante como lâmina fria. — Mas vocês cometeram o erro de subestimar quem ele tentou derrubar. Eu não estou aqui para negociar a licitação. Estou aqui para garantir que o Consórcio Valerius entenda que a hierarquia desta cidade mudou.
Beatriz, ofegante, olhou para Arthur com uma mistura de terror e fascínio. A aura de calma que ele emanava era o controle absoluto de um predador que já vira guerras maiores. Ela percebeu: o homem que ela contratara como segurança era a peça mais perigosa do tabuleiro. O Consórcio não era apenas um grupo de investidores; era a sombra que governava a elite, e Arthur Vale acabara de declarar guerra aberta contra eles.