Novel

Chapter 2: O Preço da Resistência

Arthur confronta Beatriz nos bastidores, expõe o conhecimento das fraudes e a pressiona com a escritura original. Ela revela chantagem de Ricardo envolvendo a casa da mãe. Arthur reconhece um segurança antigo e o intimida sutilmente. Beatriz entrega o laudo técnico original que prova a falsificação, iniciando compromisso mútuo para anular o leilão no dia seguinte, apesar do risco crescente de retaliação.

Release unitFull access availablePortuguese / Português
Full chapter open Full chapter access is active.

O Preço da Resistência

O eco do martelo ainda vibrava nos tímpanos de Arthur quando ele empurrou a porta dos bastidores da Galeria Solis. O corredor reservado fedia a cera de chão e tensão antiga. Beatriz já ia dez metros à frente, saltos batendo rápido contra o mármore, tentando chegar à sala de preparação antes que o salão inteiro percebesse que ela conversava com o pária do leilão.

Arthur acelerou três passadas largas e a encostou contra a parede fria. O salto dela raspou um centímetro; o antebraço dele virou barreira.

— O contrato, Beatriz. Quem assinou sabendo que era roubo?

Ela desviou os olhos. Ele não permitiu.

— Solta, Arthur. Isso destrói a galeria.

— Destrói? — A voz saiu baixa, quase gentil. — Você assinou sabendo que a certidão era falsificada. Fala agora ou o conselho recebe o vídeo do martelo antes do amanhecer.

O celular dela escapou e quicou no piso. Passos pesados ecoaram no fim do corredor. Beatriz engoliu em seco; suor escorreu pela têmpora.

— Ele tem gravações — sussurrou ela. — Eu assinando. Segurou meu pulso. Disse que, se eu não batesse o martelo, minha mãe perdia a casa em dois dias. A casa do meu avô…

Arthur afrouxou um milímetro a pressão, mas manteve o braço firme.

— Então trocou a lei pela casa dela.

— Troquei pela sobrevivência.

Ele tirou do bolso interno a escritura original, ainda morna do corpo, e depositou na palma aberta dela.

— Agora você escolhe outra vez. Sua reputação ou a deles. Autentica isso amanhã cedo e anula o leilão. Ou queima e assiste a galeria virar pó do mesmo jeito.

Os dedos dela se fecharam devagar sobre o papel. Os olhos subiram até os dele — raiva, medo e, pela primeira vez, um brilho de respeito relutante.

— Você não mudou, mudou? Ainda joga xadrez enquanto os outros jogam baralho.

— Eu nunca joguei baralho.

Duas figuras bloquearam a saída. Uniformes pretos sem distintivo, ombros largos. O mais alto era magro; o mais baixo tinha pescoço de touro.

— Senhor Montenegro manda avisar — disse o magro, voz sem entonação. — Tempo de visita acabou. Saia.

Arthur não virou. Seus olhos cruzaram o rosto do segurança baixo e pararam.

— Sargento Mendes — murmurou, quase amigável. — Ainda na reserva?

O homem hesitou. A mão que subia para o rádio congelou no ar.

— Capitão… — respondeu baixo, por reflexo.

O outro franziu a testa, perdido.

Arthur manteve o olhar fixo em Mendes.

— Diga a Ricardo que o preço da mãe dele ainda não foi pago. E que eu cobro juros.

Mendes engoliu em seco. Deu um passo atrás. O outro segurou o braço dele, mas Mendes balançou a cabeça.

— Vamos.

Os dois recuaram. O corredor recuperou o silêncio.

Beatriz soltou o ar que prendia.

— Você conhece metade da cidade, não é?

— Conheço quem importa.

Ela o conduziu até a sala de preparação. A porta fechou com clique seco, abafando o burburinho distante do salão.

Beatriz encostou na madeira por um segundo, precisando do apoio. O envelope bege, lacre vermelho já rompido, tremia entre seus dedos.

— Eu deveria ter queimado isso hoje cedo — disse ela. — Ricardo mandou mensageiro às seis da manhã. “Destrua ou sua casa vira cinzas antes do fim do mês.”

Arthur cruzou os braços, ocupando o centro do escritório sem esforço visível.

— E você não queimou.

— Não queimei. — Ela ergueu os olhos. — Aqui dentro está o laudo técnico original da vistoria do Edifício Horizonte. Assinado, carimbado, anterior à certidão que ele apresentou. A falsificação salta aos olhos.

Ela estendeu o envelope, mas parou a meio caminho.

— Se eu te entregar isso, amanhã eu sou a primeira na mira. Não só do Ricardo. Dos homens que botam dinheiro na mesa dele sem nunca aparecerem.

Arthur pegou o envelope, abriu, leu as primeiras linhas em silêncio. Devolveu.

— Você autentica isso oficialmente amanhã cedo. Cartório, prefeitura, conselho de corretores. Tudo registrado antes do meio-dia.

Beatriz piscou.

— E depois?

— Depois você me liga. Eu entro no salão principal com você. Mostramos o laudo. O martelo volta atrás. Ricardo descobre que comprou fumaça.

Ela hesitou.

— Se eu fizer isso, não tem volta.

— Não tem volta desde o martelo.

Botas pesadas tremeram no corredor outra vez. Quatro pares agora. Os dois de antes tinham trazido reforços. Blazers cinza-escuros, brasão da Montenegro Segurança Privada.

O líder, cicatriz na sobrancelha, apontou o queixo para Arthur.

— Senhor Montenegro manda avisar: acabou o tempo. Saia ou a gente tira você.

Arthur catalogou os quatro em segundos: distribuição de peso, posição das mãos, volume dos coldres discretos.

Beatriz deu um passo à frente, ficando entre eles.

— Vocês estão dentro da Galeria Solis. Aqui quem manda sou eu. Ele é meu convidado oficial. Se encostarem um dedo nele, amanhã eu fecho as portas e chamo a imprensa para filmar cada segundo dessa humilhação.

O líder riu seco.

— Dona Beatriz, com respeito… o contrato que a senhora assinou diz outra coisa. E o senhor Montenegro já avisou que compra a galeria inteira só para calar a senhora, se precisar.

Beatriz apertou a pasta contra o peito.

— Então diga a ele que o contrato que ele me fez assinar está prestes a virar prova criminal. E que eu guardei cópias.

Silêncio pesado. O líder olhou para os outros. Ninguém se moveu.

— Vocês têm dez segundos para sair do meu prédio — disse Beatriz, voz firme agora. — Ou eu aperto o alarme e transformo isso em escândalo antes do café da manhã.

O líder cuspiu no chão.

— Isso não acaba aqui.

Eles recuaram.

Quando o corredor ficou vazio, Beatriz virou-se para Arthur. Entregou o envelope lacrado.

— Isso vai destruir a todos nós — avisou, voz tremendo pela primeira vez.

Arthur pegou o material, guardou no bolso interno.

— Apenas aos que merecem.

Member Access

Unlock the full catalog

Free preview gets people in. Membership keeps the story moving.

  • Monthly and yearly membership
  • Comic pages, novels, and screen catalog
  • Resume progress and keep favorites synced