A Máscara Cai
O ar na sala de servidores do Hospital Valente era rarefeito, carregado com o zumbido metálico dos racks de processamento. Arthur não precisava de monitores extras; o pulsar da rede, agora sob seu comando absoluto, era mais legível que qualquer gráfico de ações. Ele rastreava o capital do Sindicato através de camadas criptografadas, um fluxo financeiro destinado à demolição do bairro que ele estrangulava com a precisão de um cirurgião.
Beatriz observava as telas, as mãos firmes sobre a mesa de mogno. A fragilidade de outrora dera lugar a uma vigilância gélida.
— Estão tentando mover o saldo da demolição para a fachada da construtora — ela apontou. — Se o leilão for confirmado amanhã, o patrimônio será drenado antes que possamos recorrer.
Arthur não respondeu. Seus dedos dançavam sobre o teclado. Ele quebrou a última barreira de segurança do servidor central do Sindicato. A resposta foi instantânea: uma transferência de alto volume bloqueada e o nome do beneficiário final saltando na tela: Grupo Salles-Mentor. Com um comando, ele redirecionou o log de auditoria para os principais jornais da capital e para a Comissão de Valores Mobiliários. Em segundos, o império de Ricardo Salles começou a ruir. Nas telas do saguão, as ações de Salles despencavam em uma cascata ininterrupta de vermelho. Ele estava acabado, um pária social exposto em tempo real.
Mas o alívio não veio. Arthur olhou para o monitor de segurança: um comboio de veículos pretos, sem identificação, contornava o bloqueio policial que ele forçara a recuar. A formação era cirúrgica.
— Não é uma antecipação comum, Beatriz — disse Arthur, a voz desprovida de hesitação. — Eles não querem apenas o leilão. O líder deles veio garantir que o processo termine com a nossa rendição definitiva.
O saguão do hospital silenciou. As portas automáticas deslizaram com um sibilo metálico. A escolta entrou, homens de terno escuro e movimentos sincronizados. No centro, caminhava um homem de cabelos grisalhos, impecavelmente alinhado, cuja presença parecia sugar a luz do ambiente. Arthur sentiu o impacto no peito. O homem parou a poucos metros, com um sorriso de quem observa um aluno que finalmente completou um exercício difícil.
— Você aprendeu bem, Arthur — disse o homem, sua voz ecoando com uma autoridade que parecia moldar o ar. — Mas a dor é a única professora que deixa cicatrizes permanentes. Você acha que salvou este hospital, mas apenas me forçou a vir buscar o que é meu por direito.
Arthur travou. O rosto, as marcas de expressão, o olhar gélido — era o General Alencar, o mentor que o treinou nas forças especiais, o homem que Arthur salvara de uma emboscada anos atrás, o mesmo homem que agora se revelava o arquiteto de sua ruína. O monstro que ele devia destruir era o homem que o ensinou a ser um guerreiro. O tabuleiro não estava apenas resetado; ele tinha sido virado. A guerra, percebeu Arthur, estava apenas começando.