A Queda da Fachada
O Sucata-09 não gemia mais; ele gritava. O chassi, uma colcha de retalhos de metal recuperado e soldas improvisadas, vibrava em frequências que faziam os dentes de Kael latejarem. No painel de controle, o medidor de dívida — um monstro de 480.000 créditos — pulsava em um vermelho carmesim, drenando a energia do motor para alimentar o protocolo de purificação da Torre. A Torre não estava apenas cobrando o débito; ela estava deletando Kael da existência física. Cada pulso de anulação disparado pelos drones de segurança no Nível 2 transformava parte da blindagem do seu mech em poeira digital.
— Vamos, seu monte de sucata, não morra agora — Kael sibilou, os dedos calejados dançando sobre o terminal modificado. O ar na cabine estava saturado com o cheiro de ozônio e isolamento queimado. O Nível 2, aquele cemitério industrial de carcaças, tornara-se uma armadilha. A Torre bloqueou as saídas, forçando a reciclagem. Kael não tinha para onde correr, mas tinha o backdoor do seu mentor. Com um movimento brusco, ele injetou o código de autenticação forçada no nó de transmissão central. A tela piscou, revelando a verdade nua: a dívida não era um saldo, era o combustível que mantinha o brilho estéril dos andares superiores.
Ele avançou pelo Corredor de Acesso ao Núcleo, o motor do Sucata-09 protestando a cada centímetro. Uma silhueta esguia bloqueava o caminho. Lívia Aço. Seu mech, uma obra de engenharia de elite reluzente, estava alinhado com a cabine de Kael. O canhão de pulso de alta frequência brilhava, mas o dedo de Lívia hesitava sobre o gatilho.
— Saia da frente, Lívia — a voz de Kael saiu distorcida, metálica. — Você está protegendo uma fornalha que queima gente como nós para manter suas luzes acesas.
Lívia deu um passo à frente, o metal de seu mech rangendo. — Você é apenas um erro de sistema, Kael. Um bug barulhento. A Torre não comete erros, ela recicla o que não serve.
Kael não respondeu com palavras. Ele disparou o fragmento de memória que recuperara no Nível 2 diretamente no canal de curto alcance de Lívia. Não era um argumento, era um arquivo de logs: a prova irrefutável de que o mentor de Lívia fora descartado pelo mesmo protocolo de purga que agora tentava apagá-lo. Lívia travou. O canhão baixou milímetros, a dúvida corroendo a fachada de perfeição da elite.
— Eles nos usam como pilhas, Lívia. Você, eu, todos eles — Kael forçou o Sucata-09 a avançar, ignorando o aviso de colapso do motor.
Eles chegaram ao Núcleo de Processamento. O lugar era um altar de eletricidade estática e servidores zumbindo na frequência do desespero. Kael injetou o backdoor no mainframe. A verdade sobre a colheita de energia começou a ser projetada em todos os andares, uma cascata de dados que expunha a farsa do ranking.
— Kael, pare! — A voz de Lívia cortou a estática, carregada de pânico real. — Se você injetar esse código, o protocolo de purga vai apagar o setor inteiro. Você vai matar a todos nós!
— Eles já estão nos matando! — Kael rugiu, enquanto o sistema da Torre entrava em colapso, iniciando um reinício de emergência violento.
O mundo lá fora viu a farsa cair, mas o preço foi imediato. As paredes do núcleo começaram a se fechar, o metal derretendo sob a sobrecarga. Kael e Lívia, presos na mesma armadilha, sentiram o chão tremer enquanto o sistema reiniciava, selando as saídas e deixando-os à mercê de uma Torre que agora via ambos como uma ameaça a ser eliminada.