A Armadilha do Leilão
O ar-condicionado do Centro Municipal de Licitações soprava um frio esterilizado, mas não era o suficiente para congelar a tensão que Arthur carregava consigo. Ele caminhou pelo corredor de mármore com uma cadência militar, seus passos ecoando como uma sentença. A elite local, reunida para o leilão do 'Legado', observava-o como se ele fosse uma mancha em um tapete persa. Para eles, Arthur era o ex-pária, o homem que perdera o império da família. Para Arthur, eles eram apenas peças em um tabuleiro que ele já havia memorizado.
Na entrada, um segurança bloqueou-lhe o caminho, o sorriso cínico desenhado no rosto.
— A lista de convidados não aceita fantasmas, Arthur. O acesso é restrito aos que têm capital, não aos que têm dívidas.
Arthur parou. Não houve raiva, apenas uma calma gélida que fez o segurança recuar um passo instintivamente. Ele retirou um envelope pardo do bolso interno do blazer.
— O artigo 42 do Código de Posturas Municipais exige que qualquer licitação com impacto no patrimônio histórico seja aberta ao escrutínio público, sob pena de nulidade imediata — a voz de Arthur era baixa, destilada de qualquer hesitação. — Se você me impedir, estará assinando o relatório de obstrução que já estou redigindo para a corregedoria. Sua carreira termina nos próximos cinco minutos. Escolha.
O segurança vacilou, o cinismo dando lugar a uma súbita percepção de perigo. Ele recuou, permitindo a passagem. Arthur entrou no salão.
Ricardo Viana estava no centro, girando uma taça de cristal com a arrogância de quem já possuía o terreno. Quando Arthur se aproximou da mesa do buffet, o silêncio ao redor de Viana não foi de respeito, mas de um desprezo clínico. Viana não se deu ao trabalho de olhar para ele.
— O garçom está perdido? — Viana disparou, a voz alta o suficiente para que todos ouvissem. — O Legado está sendo liquidado. Não há mais lugar para você aqui, Arthur. Volte para a cozinha onde você pertence.
Arthur ajustou o colarinho, mantendo o olhar fixo no magnata.
— O leilão é uma farsa, Ricardo. O corretor que assinou a avaliação de risco cometeu um erro crasso na datação. Sob o Código de 2018, as assinaturas para desapropriação exigem uma averbação cartorial que não existe aqui. Você está comprando um processo anulável.
Viana parou de girar a taça. Seus olhos estreitaram-se. Ele se inclinou, tentando projetar uma dominância física que Arthur ignorou solenemente.
— Você está blefando, seu verme fracassado — sibilou Viana. — Eu destruí sua família uma vez, e farei questão de ver o último tijolo do seu restaurante ser demolido.
Arthur não respondeu. Ele se retirou para a penumbra do banheiro, onde Marcelo, o corretor, o aguardava com a pasta de documentos. Arthur fechou a porta com um estalo seco. Não houve gritos, apenas a precisão de quem conhece onde aplicar a pressão para que a estrutura colapsasse. Ele imobilizou o pulso do homem contra a bancada.
— A assinatura é falsa, Marcelo. E a anomalia de protocolo que você usou já foi elevada para auditoria federal. Se esse arquivo sumir, os logs do servidor provarão a fraude de qualquer forma. O destino do seu nome está ligado ao de Viana. Quer ser o único a cair?
O corretor empalideceu, entregando a pasta sem resistência. Arthur sentiu o peso do documento selado — a prova que ele precisava.
De volta ao salão, o leiloeiro bradava: — Quinhentos milhões pela última vez!
Arthur caminhou até o palco. Viana riu ao vê-lo, gesticulando para os seguranças.
— Tirem esse lixo daqui!
Arthur ignorou a ordem e estendeu o tablet com a prova da fraude para o leiloeiro, forçando-o a encarar a evidência. Ricardo Viana riu da audácia de Arthur, sem saber que o arquivo que o homem segurava não era apenas um documento, mas a chave que faria todo o seu império vir abaixo.