O Preço da Lealdade
O relógio digital no pulso de Elias marcava 07:14:32. O tempo não era apenas uma medida; era o som da corda esticando até o ponto de ruptura. Ele estava de volta ao Santa Helena, não como o auditor metódico de outrora, mas como um invasor foragido, rastejando pela ventilação do subsolo enquanto a chuva de São Paulo martelava o concreto acima, abafando o mundo exterior.
O ar no duto era denso, saturado com o cheiro de ozônio e desinfetante hospitalar. Elias parou sobre a grade de ventilação. Abaixo, a sala de arquivos improvisada era um cenário de pesadelo clínico. Dra. Helena Sampaio caminhava em círculos ao redor de Júlia, cujos pulsos estavam atados à cadeira de metal. A cirurgiã não gritava; sua voz era um bisturi, fria e precisa.
— Onde está o drive, Júlia? — Helena parou, inclinando-se. — Sua família não tem lastro para o tipo de acidente que ocorre quando alguém se torna um estorvo administrativo. O silêncio é uma escolha cara demais para você.
Júlia levantou o rosto. Seus olhos estavam injetados, mas havia uma faísca de desafio que Elias reconheceu — a mesma que o levara a cometer seu erro fatal anos atrás. Ela olhou para cima, para a fresta da ventilação, e depois para o corredor que levava à câmara fria.
— Eu não tenho nada — ela sussurrou. Então, num movimento súbito, gritou para o segurança na porta, forçando uma distração. Enquanto o homem avançava, ela fixou os olhos em Elias e murmurou, num fio de voz que mal rompeu o zumbido dos compressores: — Subsolo, atrás da câmara fria.
O segurança silenciou-a com um golpe seco na lateral da cabeça. O sangue pulsou nas têmporas de Elias. Ele não tinha mais tempo para a diplomacia. Ele se arrastou pelo duto, emergiu no corredor de serviço e avançou. Atrás da câmara fria, o servidor de backup era uma caixa cinza, esquecida entre suprimentos vencidos. Ele conectou o dispositivo de extração, mas o som de botas pesadas ecoou no concreto. Um segurança surgiu, a mão no coldre.
Elias arremessou um extintor contra a tubulação. O vapor quente explodiu em um chiado ensurdecedor, cegando o homem. Elias colidiu contra ele, forçando-o contra a parede metálica. O segurança caiu, mas o alarme silencioso disparou, transformando o hospital em uma fortaleza hostil.
Elias conectou o cabo de rede ao terminal. O sistema, em alerta máximo, respondeu com lentidão calculada. A barra de progresso começou a avançar: 10%... 30%... 50%. No corredor, o eco de botas pesadas sobre o piso de granito indicava que a equipe de segurança estava varrendo o nível inferior. Elias sentiu o suor frio escorrer pela têmpora. Aos 70%, o cursor travou. Uma mensagem de erro de bloqueio remoto piscou na tela, forçando-o a reescrever o código de acesso em tempo real. O download dos dados começou, mas a barra de progresso avançava mais devagar que os passos da equipe de segurança que se aproximava da sala.