O Cúmplice Morto
O relógio digital na parede da sala de servidores não marcava apenas o tempo; ele contava os batimentos cardíacos que restavam para a verdade. Trinta e seis horas. A auditoria de sexta-feira, antes uma formalidade administrativa, agora era uma incineração programada. O zumbido dos ventiladores parecia um mantra metálico, abafando o som da minha própria respiração.
O arquivo que Lucas descriptografara não era um prontuário. Era um mapa de sangria. Na tela, as planilhas de "Manutenção de Infraestrutura da Basílica" revelavam transferências vultosas para contas offshore. Heitor Medeiros não era um paciente; era um operador financeiro. A dosagem de potássio que encerrou sua vida às 22:00 não fora um erro médico, mas uma liquidação de sócio. Dr. Arnaldo Siqueira não era um filantropo; era o zelador de uma lavanderia de dinheiro de caixa dois da elite política.
Meu celular vibrou sobre a mesa de metal, um aviso anônimo na tela: “O sistema detectou o acesso. Saia ou será apagada.”
Saí da sala com o drive USB apertado na palma da mão, o metal frio queimando a pele. O corredor da ala administrativa estava deserto, iluminado apenas pelo brilho azulado dos LEDs de emergência. A cada passo, o silêncio do hospital parecia mais pesado, carregado pela superstição da cidade de peregrinação. Aqui, o silêncio não era paz; era a moeda de troca que mantinha as fundações religiosas acima de qualquer suspeita.
Encontrei Lucas no refeitório, um canto onde a luz das velas dos santuários externos mal alcançava as janelas. Ele estava encolhido, os ombros tensos sob o jaleco cinza, as mãos escondidas sob a mesa.
— Siqueira sabe — ele sussurrou, sem me encarar. — Ele bloqueou sua credencial de administrador. Ele está caçando o 'fantasma' no servidor. Se ele chegar até mim, minha irmã... Elena, eles sabem onde ela estuda.
— Eles não vão chegar a ela se tivermos a alavanca certa — respondi, deslizando o tablet com a cópia dos logs. — Medeiros era o elo. Se a polícia entender que o hospital é uma lavanderia, a auditoria vira uma cena de crime.
Lucas olhou para a tela. Seu rosto, antes pálido, tornou-se cinzento. Ele entendeu que não era mais um técnico de TI, mas um cúmplice em uma execução.
— Você me condenou — murmurou ele.
— Eu te dei uma saída — retruquei, embora o terror estivesse subindo pela minha garganta. — Se ficarmos parados, seremos os próximos a ser 'desligados' por negligência. Precisamos de um servidor externo. Agora.
Ao retornar para minha sala, o ar parecia rarefeito. Tentei acessar o log uma última vez para confirmar a transferência, mas a tela piscou em vermelho vivo: ACESSO NEGADO – AUDITORIA DE SEGURANÇA EM CURSO. O tempo estava engolindo as provas.
Foi então que o clique metálico soou. A câmera de segurança no canto do teto, até então inerte, girou com uma precisão predatória. A lente, um olho de vidro negro, travou o foco diretamente em mim. Siqueira não me demitira porque precisava que eu revelasse quem mais sabia. Eu era a caça, e o jogo tinha acabado de mudar para uma caçada aberta.