Novel

Chapter 1: O Prontuário Fantasma

Elena Valente descobre uma dosagem letal no prontuário de um magnata falecido, assinada pelo diretor clínico, Dr. Arnaldo Siqueira. Após ser confrontada por Arnaldo, que usa o passado do pai de Elena como ameaça, ela força o técnico de TI, Lucas, a acessar o log original. O sistema revela que a auditoria de limpeza de dados foi antecipada para sexta-feira, reduzindo o tempo de Elena para 48 horas.

Release unitFull access availablePortuguese / Português
Full chapter open Full chapter access is active.

O Prontuário Fantasma

O cursor piscava no prontuário de Heitor Medeiros como um batimento cardíaco em falência. Elena Valente ajustou o brilho do monitor, sentindo o ar-condicionado gélido da Sala de Arquivos Médicos infiltrar-se sob o blazer. Às 03:14 da manhã, o Hospital de Elite era um santuário de silêncio, mas o documento na tela gritava. Heitor, o maior doador da ala de oncologia e magnata das terras do vale, morrera de insuficiência cardíaca às 22:00. No entanto, o log de dosagem indicava a administração de 50mg de cloreto de potássio em bolus às 21:45. Era uma sentença de morte, não um tratamento. O erro era grosseiro demais para ser acidental.

Elena sentiu o estômago revirar. A assinatura digital da prescrição pertencia ao Dr. Arnaldo Siqueira, o pilar de fé da cidade e diretor clínico. Ela tentou acessar o log de auditoria original, o rastro digital que não podia ser alterado, mas o sistema travou. Uma barra de progresso lenta apareceu no canto inferior direito. Elena tentou imprimir a página, mas a tela escureceu e exibiu uma caixa de diálogo em vermelho sangue: Acesso negado. Nível de autorização insuficiente.

— Você não deveria estar aqui, Elena — uma voz grave ecoou na porta.

Elena não precisou se virar. O perfume de sândalo e o som dos sapatos italianos no granito entregavam Arnaldo. Ela fechou a aba do prontuário com um comando rápido, mas o coração martelava contra as costelas. Arnaldo Siqueira parou a poucos metros, impecável, alinhado como uma armadura. Ele emanava a autoridade de quem detinha as chaves da salvação e da ruína naquela cidade de peregrinação.

— A vigilância é a primeira forma de oração, Elena — disse ele, com um sorriso que não chegava aos olhos cinzentos. — Nossos pacientes depositam aqui não apenas a saúde, mas o destino de suas linhagens. O erro, ou mesmo a curiosidade desmedida, é um pecado que o hospital não pode se permitir.

Ele deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal de Elena. O cheiro de álcool antisséptico e colônia cara era sufocante.

— Seu pai, Valente, tinha essa mesma mania de procurar fantasmas onde só havia a vontade divina. E veja como terminou: esquecido, desonrado, sem uma única alma para velar por ele. Não cometa o mesmo erro por um prontuário que já não existe mais.

Elena sentiu o sangue gelar. Ele sabia. Ele sabia exatamente o que ela tinha visto e o custo que ela estava disposta a pagar para limpar o nome de seu pai. Arnaldo virou-se e caminhou em direção à UTI, deixando-a com o peso da ameaça pairando no ar. Ela não tinha tempo para o luto ou para o medo. Precisava do log original antes que o sistema fosse purgado.

Ela correu para o subsolo, onde o ar era denso, carregado com o zumbido metálico dos servidores e o cheiro acre de ozônio. Encontrou Lucas em um cubículo mal iluminado, cercado por cabos trançados como vísceras de metal. O técnico mantinha os olhos fixos em uma tela que vertia linhas de código.

— Eu não posso, Elena — Lucas sussurrou, a voz contida pelo medo. — A auditoria de rotina foi antecipada. O sistema está em modo de autolimpeza. Se eu abrir qualquer log agora, o firewall vai registrar meu acesso e o seu. Eles vão saber em segundos.

Elena inclinou-se sobre a mesa, invadindo o espaço pessoal do técnico. A luz azulada da tela projetava sombras profundas em seu rosto.

— Você tem uma irmã em tratamento na capital, Lucas. E o seu histórico financeiro aqui no hospital mostra pagamentos que o conselho de ética não veria com bons olhos — ela disparou, a voz fria, desprovida de hesitação. — Ou você abre esse log, ou eu garanto que a sua saída desta cidade será através de uma cela.

Lucas engoliu em seco, os dedos trêmulos sobre o teclado. Ele digitou uma sequência rápida, ignorando os avisos de segurança que piscavam em amarelo. O sistema processou a solicitação. Elena prendeu a respiração, observando a barra de progresso avançar. Quando o arquivo finalmente se abriu, o monitor não exibiu o prontuário de Heitor, mas um aviso em letras garrafais que fez o ar faltar em seus pulmões.

O sistema piscou em vermelho: 'Auditoria antecipada para sexta-feira'. O tempo de Elena acabava de ser cortado pela metade.

Member Access

Unlock the full catalog

Free preview gets people in. Membership keeps the story moving.

  • Monthly and yearly membership
  • Comic pages, novels, and screen catalog
  • Resume progress and keep favorites synced