O Legado do Dragão
O martelo do leiloeiro desceu, mas não houve o som seco da madeira contra o mármore. O que preencheu o salão foi um silêncio absoluto, denso como chumbo. No telão central, os logs da fraude de Marcelo Rocha não eram apenas números; eram uma confissão em tempo real, selada com a assinatura digital de nível sete — a marca indelével da linhagem Vane.
Marcelo Rocha, o magnata que minutos antes ditava o ritmo do mercado de jade, parecia ter envelhecido décadas em segundos. A cor esvaiu-se de seu rosto enquanto os agentes da Polícia Federal, convocados pelo próprio sistema de Arthur, atravessavam o salão. O som das botas no granito era a contagem regressiva para o fim de seu império. Quando as algemas estalaram em seus pulsos, o som foi o único aplauso que a elite, agora paralisada pelo medo, ousou emitir.
Arthur Vane observava tudo com a imobilidade de uma estátua. Suas mãos estavam nos bolsos, o rosto uma máscara de neutralidade calculada. Ao seu lado, Beatriz Alencar ainda processava a metamorfose do homem que, até a véspera, ela tratava como um assistente descartável. A Alencar Mineração estava salva, não por sorte, mas por uma arquitetura de poder que Arthur erguera sob o nariz de todos os seus inimigos.
Mais tarde, no escritório privado, o ar ainda vibrava com a tensão da queda. Beatriz, com a caneta tinteiro suspensa sobre o contrato de reestruturação, finalmente encontrou coragem para olhar para ele.
— Você salvou tudo, Arthur — disse ela, a voz mal passando de um sussurro. — Mas o custo não foi apenas financeiro. Aquela sequência de código... não pertence a este mundo. Quem é você?
Arthur não se virou. Ele observava o reflexo da metrópole na vidraça, a cidade que agora, sem que ela soubesse, estava sob sua custódia.
— O nome que você conhece é apenas uma casca, Beatriz — respondeu ele, sua voz um comando suave que exigia obediência e oferecia proteção. — A chave de nível sete que eles usaram para tentar nos escravizar agora é minha. O jogo mudou de mãos. O que importa é que a Alencar Mineração é agora o alicerce de algo muito maior.
Na cobertura do Edifício Imperial, o ponto mais alto da cidade, a paz era apenas uma ilusão. O zumbido de um dispositivo de comunicação de alta frequência sobre a mesa de mármore cortou o silêncio da noite. A mensagem era curta: “O peão foi removido, mas o jogo mal começou. O traidor está mais perto do que o seu sangue permite ver.”
O ar esfriou. A traição não vinha de fora; era uma ferida aberta dentro da própria linhagem Vane. Arthur sentiu o peso do anel de sinete em seu dedo, um lembrete físico de um legado que ele jurara restaurar. Marcelo Rocha fora apenas um instrumento de distração, um peão descartável usado para testar sua paciência.
Silas, seu braço direito, surgiu das sombras com uma reverência que antes era reservada apenas aos seus algozes.
— O leilão foi limpo, senhor. Os traidores foram removidos da folha de pagamento — reportou Silas.
Arthur caminhou até a varanda. O vidro temperado vibrava com a frequência das luzes de neon lá embaixo. A cidade, antes um antro de abutres, agora respirava sob o seu comando silencioso.
— Isso não é o fim, Silas — Arthur disse, a voz cortante. — É apenas o mapa. A corrupção é uma hidra; se eu cortar apenas uma cabeça, a cidade morrerá de veneno. Preciso de todo o reino. Eu cansei de ser uma peça.
Ele olhou para o horizonte, onde a silhueta da sede do conselho se erguia como uma fortaleza. O Rei Dragão estava pronto. A verdadeira guerra estava apenas começando.