O Último Recurso
O escritório de Beatriz Alencar, outrora um santuário de prestígio, assemelhava-se agora a uma sala de autópsia. O ar estava saturado com o zumbido dos servidores operando em capacidade máxima. Beatriz observava a metrópole através do vidro temperado; a mesma cidade que, horas antes, a tratava como um alvo fácil, agora silenciava diante da ascensão de Arthur Vane.
Arthur não olhava para a vista. Seus dedos dançavam sobre o teclado, desmantelando a última camada de criptografia do servidor de Marcelo Rocha. O Tubarão fora apenas um peão, um executor de ordens, mas os logs digitais que ele deixara para trás eram um roteiro detalhado de traição.
— A transferência não foi para a conta de Marcelo — disse Arthur, a voz cortante. — Ele apenas lavava o dinheiro. A assinatura digital que autorizou a fraude, a chave que contornou os protocolos de segurança do leilão, não pertence a nenhum banco comercial. É uma chave privada de nível sete.
Beatriz virou-se, o rosto pálido sob a luz azul dos monitores.
— Nível sete? Arthur, isso é impossível. Esse protocolo foi enterrado com a linhagem Vane há vinte anos. Ninguém fora do seu círculo restrito deveria possuir essa criptografia.
— Exatamente. — Arthur parou a digitação. Seus olhos, frios e calculistas, fixaram-se em um padrão de dados que se reorganizava na tela. O magnata das sombras não era um estranho; era um fantasma que ele acreditava ter enterrado. A revelação não era apenas sobre dinheiro; era sobre a sobrevivência de sua linhagem.
Na Bolsa de Valores, o ambiente fervilhava com eletricidade nervosa. O leilão da divisão de mineração da Alencar era a isca. Arthur observava o telão central. O emissário do grupo investidor, um homem impecavelmente vestido, desceu as escadas com uma arrogância que cortava o ar. Ele parou diante de Beatriz, estendendo um tablet com o contrato viciado.
— Assine, senhorita Alencar. O conselho não terá paciência para esperar pela sua boa vontade. A liquidação é o único caminho.
Beatriz olhou para Arthur, que apenas acenou. Ela assinou. No segundo em que a validação digital ocorreu, Arthur inseriu um comando. O telão da bolsa piscou e foi substituído por logs de transferência bancária em tempo real, ligando o emissário diretamente à conta offshore do mentor de Marcelo.
O salão silenciou. A elite presente percebeu que o poder real havia mudado de mãos. O emissário recuou, o rosto desprovido de cor, enquanto os seguranças da bolsa, sob as ordens de Arthur, cercavam a saída. Arthur capturou a evidência de voz do emissário tentando subornar o leiloeiro, a prova final que derrubaria o conselho.
Horas depois, no terraço privativo, a verdade se consolidou. Arthur girou o tablet em direção a Beatriz. Na tela, a assinatura digital do magnata brilhava em vermelho: o selo de linhagem dos Vane, corrompido por um algoritmo de ocultação.
— Este selo... é o dos fundadores da cidade — Beatriz murmurou, a respiração presa. — O conselho afirma que essa linhagem foi extinta.
— Extinta não. Traída — corrigiu Arthur. — O homem que opera nas sombras, o mentor que usou Marcelo como um peão, é o mesmo que orquestrou o exílio da minha família. Ele não quer apenas o controle do jade; ele quer apagar qualquer vestígio de que o direito de governar esta cidade não lhe pertence por direito de sangue.
Arthur enviou o arquivo selado para o Ministério Público e para os principais veículos de imprensa. A manhã seguinte não traria apenas o fim de um leilão, mas o início da queda pública do homem que, durante duas décadas, acreditou ter vencido o Rei Dragão. O magnata das sombras estava prestes a ser arrastado para a luz.