O Rei no Trono
O ar no Hospital Alencar não cheirava mais a desespero. O antisséptico, antes uma mortalha que sufocava Arthur Viana, agora era apenas o perfume da ordem. Ele caminhou pelo saguão principal, o som de seus sapatos de couro contra o mármore polido ecoando como um veredito. Cada funcionário que cruzava seu caminho baixava o olhar, não por medo de uma demissão, mas pelo reconhecimento instintivo de um predador que finalmente reclamara seu território.
Dr. Silas o aguardava na recepção, os ombros ainda curvados pelo peso de anos de submissão ao Conselho Superior. Ele segurava um tablet com as mãos trêmulas.
— O ultimato chegou, Arthur — Silas murmurou, a voz mal passando de um sussurro. — Eles exigem a devolução da gestão administrativa em setenta e duas horas. Dizem que, se não cedermos, o consórcio de investidores cortará o fornecimento de insumos e isolará o hospital da rede de seguros. Eles vão nos sufocar.
Arthur parou diante da grande vidraça que dava vista para a metrópole. São Paulo, um emaranhado de luzes e ambições, parecia pequena sob seu olhar. Ele não se virou.
— O Conselho não teme a perda de um hospital, Silas. Eles temem o que o hospital revela sobre a estrutura que os sustenta. Eles estão tentando estancar uma hemorragia com um curativo de ameaças.
Arthur deixou sobre o balcão de mogno um arquivo físico, pesado, lacrado com o selo da linhagem Viana. O estalo do papel contra a madeira soou como um tiro no silêncio do saguão.
— Prepare a infraestrutura para o confronto. Não vamos devolver nada. Vamos expor a falência moral deles para cada acionista que ainda acredita na fachada de poder que eles vendem.
Horas depois, no escritório da diretoria, a atmosfera era de uma frieza cirúrgica. O emissário do Conselho, um homem cujo terno custava mais que o salário anual de um enfermeiro, entrou sem bater. Seu rosto, porém, não exibia a arrogância habitual; havia uma palidez febril em seus olhos.
— Viana — ele começou, a voz ensaiada falhando. — O Conselho não tolera desordem. A queda da Alencar foi um erro tático que já foi corrigido. Você tem setenta e duas horas para assinar a transferência. O ostracismo que o espera caso contrário não será apenas profissional. Será total.
Arthur, sentado na cadeira de couro que um dia pertencera aos seus algozes, não abriu a pasta que o homem trouxera. Em vez disso, deslizou um documento sobre a mesa. Era uma lista detalhada: nomes de conselheiros, datas de transações ilícitas e o rastro digital do financiamento da fraude de Beatriz Alencar.
O emissário olhou para o papel. A cor drenou de seu rosto. Ele tentou falar, mas apenas um som gutural escapou de sua garganta.
— O Conselho está em pânico, não está? — Arthur perguntou, sua voz baixa, desprovida de qualquer emoção que não fosse o controle absoluto. — Eu conheço cada membro que financiou a ruína desta instituição. Diga a eles que a próxima convocação não será feita por um mensageiro, mas por um juiz. E que, desta vez, não haverá acordo nos bastidores.
O homem retirou-se, tropeçando nos próprios pés. Arthur levantou-se e dirigiu-se à delegacia. Beatriz Alencar, a outrora rainha dos leilões, estava sentada em um banco de metal, a maquiagem borrada revelando a fragilidade que ela tentara esconder por anos.
— O Conselho vai me tirar daqui — ela sibilou, os olhos injetados de ódio. — Eles sabem que eu guardo os registros. Eles não vão me deixar cair sozinha.
Arthur riu, um som seco que preencheu a sala de interrogatório. Ele lançou sobre a mesa a prova final: a transferência de todos os ativos de Beatriz para uma holding fantasma, executada pelo próprio Conselho horas antes.
— Você não é um ativo, Beatriz. Você é um erro de cálculo que eles já apagaram. A sua existência aqui é irrelevante para o meu plano maior. Você foi descartada pela mesma elite que você serviu.
Ela desmoronou, o peso da traição final atingindo-a com mais força do que qualquer cela. Arthur saiu da delegacia e subiu até a cobertura do hospital. A noite de São Paulo brilhava sob seus pés, um tabuleiro vasto e pronto para ser conquistado. A vingança fora apenas o prelúdio; seu verdadeiro objetivo era a soberania absoluta. Ele girou o anel de sinete no dedo, sentindo o peso da linhagem Viana. O novo rei estava no trono. A cidade era sua. Mas, enquanto observava o horizonte, o Dragão já buscava o próximo alvo para sua expansão.
O novo rei está no trono. A cidade é sua. Qual será o próximo alvo do Dragão?