O Cerco se Fecha
O salão de jade, antes um templo de ostentação, transformou-se em uma jaula de vidro. Arthur Valente entrou com o arquivo da fraude — a prova documental da insolvência de Ricardo Viana — ainda úmido de sangue seco nos dedos. O martelo do leiloeiro parou no ar. Ricardo, pálido atrás do púlpito, congelou. O silêncio era absoluto, interrompido apenas pelo zumbido dos sistemas de refrigeração.
— Você demorou, Exilado — arriscou Ricardo, a voz falhando. — Veio ver sua humilhação final?
Arthur não respondeu. Seus olhos varreram o salão, ignorando os colecionadores e focando no observador silencioso no terceiro andar. Então, o emissário do consórcio surgiu ao seu lado, terno impecável, rosto desprovido de humanidade. Ele estendeu um smartphone. Na tela, Helena estava amarrada a uma cadeira de metal, fita adesiva na boca, olhos arregalados. Atrás dela, dois homens mascarados.
— Sessenta minutos — sussurrou o emissário. — Entregue o arquivo, desista dos imóveis e do controle dos sistemas. Ou ela morre antes do próximo lance.
O chão sob os pés de Arthur parecia ceder. O leilão, a vingança, a exposição de Viana — tudo aquilo tornou-se irrelevante. O consórcio não jogava com dinheiro; jogava com vidas. Enquanto Viana, em pânico, tentava entender por que seu próprio consórcio o descartava, Arthur já operava. Seus dedos deslizavam pelo tablet, invadindo os backdoors da antiga Valente & Cia. O sistema, outrora uma fortaleza, sangrava dados sob seu comando.
O rastreamento do sinal de Helena pingou. O cativeiro não era um depósito periférico, mas o imóvel histórico que ele mesmo arrematara minutos antes. O consórcio transformara seu refúgio em uma armadilha. A armadilha do Mentor.
Arthur caminhou até o escritório isolado do leilão e discou o número que o Mentor usava. O homem atendeu no primeiro toque.
— Renuncie ao legado, Arthur. Assine a transferência e ela vive — a voz do Mentor era um ruído metálico.
— Você quer o legado? — Arthur perguntou, a voz cortante como lâmina. Enquanto mantinha o Mentor na linha, ele drenava a liquidez das contas operacionais do consórcio. Ele não ia ceder; ele estava desmantelando a estrutura financeira que sustentava a existência do seu oponente. O Mentor percebeu o desvio de capital quando o sistema de segurança começou a falhar, mas era tarde. A contagem regressiva marcava quinze minutos.
Arthur abandonou o leilão. Deixou Viana à mercê da multidão que começava a perceber a fraude no pingente. Ao chegar ao imóvel histórico, a armadilha de pedra e tecnologia de segurança ativou-se. Arthur não recuou. Ele conectou seu dispositivo ao painel central, assumindo o controle total. O consórcio achava que possuía o tabuleiro, mas Arthur conhecia cada viga. Ele entrou no saguão, pronto para provar que, enquanto eles sequestravam pessoas, ele sequestrava o futuro financeiro deles. O cronômetro batia os últimos dez minutos. A escolha não era mais entre o legado e a vida de Helena; era entre a rendição e a destruição total do sistema que o traiu.