O Relógio de Areia
A porta do meu apartamento não foi arrombada; foi aberta com a precisão cirúrgica de quem possui a chave mestra. O silêncio lá dentro era mais denso que a chuva que castigava as janelas de São Paulo, um silêncio de caça encerrada. Parei no limiar, o coração batendo contra as costelas como uma ave presa. O prontuário físico de Helena — a prova real da fraude — pesava contra meu peito, sob a jaqueta encharcada.
Dois homens de terno cinza, com o emblema discreto da segurança hospitalar, revistavam o fundo falso do meu armário. Eles não buscavam dinheiro; buscavam o rastro. Meu computador, a única ferramenta que me restava para vazar os dados, estava com a tela trincada e a placa lógica exposta sobre a mesa. Um convite silencioso ao desespero.
Eu não recuei. Se virasse as costas agora, Helena seria a próxima a ser 'limpada' do sistema. O relógio de auditoria interna piscava em minha mente: quarenta e sete horas e trinta minutos para a purga total de dados. Eu era um fantasma no sistema, um funcionário deletado. Quando um dos seguranças se virou, a mão pousando no coldre sob o paletó, girei nos calcanhares e disparei para a escadaria de serviço. O eco dos meus passos na escada de concreto era o único som que me separava da captura.
Minutos depois, a cafeteria da esquina parecia um refúgio de outro mundo, impregnada pelo cheiro de café queimado. O pendrive, contendo a cópia dos arquivos do protocolo V-92, pesava mais que uma arma no meu bolso. Eu não podia levá-lo comigo; ser pego com a prova seria minha sentença. Com a destreza de quem treinou para não deixar rastros, colei o dispositivo na parte inferior da mesa, reforçando-o com fita adesiva. Enquanto pressionava o plástico contra a madeira úmida, o som de pneus freando sobre o asfalto molhado cortou o ambiente. A viatura da segurança do hospital estava ali. O cerco havia se fechado.
Fui capturado no saguão administrativo do Hospital Santa Cecília, sob o olhar clínico de funcionários que fingiam não me ver. Fui escoltado até a sala de Mendes. O diretor estava de pé diante da janela, observando a tempestade. Quando se virou, não havia o escárnio que eu esperava, apenas uma calma glacial.
— Você está tornando as coisas difíceis, Lucas — Mendes começou, gesticulando para a cadeira à minha frente. — Sua irmã, Helena, está em uma posição delicada. O protocolo V-92 exige estabilidade, não o estresse que você está causando ao vazar arquivos que não compreende.
— Eu compreendo que você está matando pacientes para cobrir custos de auditoria — retruquei, mantendo-me de pé, o suor frio escorrendo pela nuca.
— A liberdade dela tem um preço — Mendes interrompeu, a voz desprovida de emoção. — Entregue o pendrive. Se o fizer agora, Helena será transferida para um centro de reabilitação privado. Se não... ela será a próxima baixa do protocolo.
Senti o peso do prontuário que ainda carregava. Mendes não sabia que o pendrive era apenas uma cópia; a prova física estava comigo. Mas a revelação veio como um golpe: o Diretor apontou para o monitor de leitos atrás do balcão de vidro. O nome de Helena piscava em vermelho: Status: Em Preparação Cirúrgica.
— Onde ela está? — sibilei, ignorando a mão do segurança em meu peito.
— A cirurgia não é para salvá-la, Lucas. É a etapa final da auditoria. Quando o bisturi terminar, qualquer prova física dentro dela, qualquer prontuário, deixará de existir — Mendes sorriu, um gesto vazio. — Você tem dez minutos antes que ela entre na sala. O pendrive, ou a vida dela.
Fui arrastado para o corredor do centro cirúrgico enquanto o relógio marcava quarenta e sete horas e vinte minutos. Percebi, com um pavor paralisante, que a cirurgia era uma fachada para remover evidências biológicas. Eu estava sendo forçado a escolher entre a verdade que salvaria muitos e a vida da única pessoa que me restava.