A Ferida Aberta
O leitor de cartões da ala de internação não emitiu o bip de confirmação. Em vez disso, uma luz vermelha, estática e agressiva, cortou a penumbra do corredor. Lucas Viana encarou o dispositivo. Seu crachá, antes uma chave para qualquer porta do Hospital Santa Cecília, agora era apenas um pedaço de plástico inútil. O sistema o havia deletado. Ele não era mais um funcionário; era um invasor.
A chuva batia contra as vidraças com a força de um aviso. O relógio digital na recepção marcava 03h14. O sistema de auditoria interna, uma máquina implacável de purga, limpava os logs a cada seis dias. Ele tinha menos de oito minutos antes que a prova final do protocolo 4092-B desaparecesse para sempre.
— Problemas, Sr. Viana? — A voz do segurança era um eco de autoridade barata. Ele não se aproximou, mas sua mão repousou sobre o cinto, observando Lucas com a desconfiança de quem sabe que o jogo mudou.
— Esqueci um prontuário no 402 — Lucas mentiu, a voz firme, embora a garganta estivesse seca. Ele não esperou a resposta. Contornou a catraca por uma fresta de serviço, ignorando o grito de protesto do segurança. Correu pelos corredores, o som de seus passos ecoando como um alerta contra o silêncio clínico do hospital.
Ao entrar no quarto 402, o cheiro de antisséptico e o som metálico de uma bandeja cirúrgica o atingiram. Helena estava sentada na cama, os ombros tensos, enquanto uma enfermeira ajustava o acesso venoso com uma frieza que não admitia perguntas.
— Helena, pare. Você não pode assinar isso — Lucas avançou, ignorando o olhar de advertência da funcionária. — Eles deletaram meu perfil. Eu não sou mais um funcionário. O protocolo mudou de 'observação' para 'eliminação'.
Helena não o olhou de imediato. Seus olhos estavam fixos em um ponto morto na parede. Quando finalmente virou o rosto, não havia o medo esperado, mas uma dureza nova, um corte clínico em sua postura.
— Você não deveria estar aqui — murmurou ela, a voz baixa, quase inaudível sob o som da tempestade. — Mendes sabe que você foi desligado. Ele está vindo.
— Ele não vai me parar. Eu vi o prontuário. Eu vi o que fizeram com o paciente 4092-B. É o mesmo protocolo que estão usando em você.
Helena estremeceu, mas, em vez de recuar, estendeu a mão trêmula e puxou um fragmento de papel amarelado debaixo do travesseiro. Não era um prontuário; era uma sequência alfanumérica escrita com a urgência de quem não teria uma segunda chance.
— Eles não estão apenas testando drogas, Lucas. Eles estão financiando o hospital com a vida de quem não tem voz. Eu sou a cobaia, mas também a contadora. Eu estive observando cada desvio, cada substância administrada fora da lei.
Lucas pegou o papel, os dedos roçando a pele fria dela. O código parecia vibrar. Antes que pudesse responder, passos pesados ressoaram no corredor. A porta se abriu e o Dr. Mendes entrou, forçando um sorriso clínico que não alcançava seus olhos.
— Lucas. Que visita inesperada — disse Mendes, observando a mão de Lucas fechada sobre o papel. — A segurança informou que você teve um surto de nostalgia.
Lucas escondeu o código no bolso, sentindo o suor frio. Mendes não pediu que ele saísse; ele apenas olhou para o monitor cardíaco de Helena, o ritmo constante do aparelho marcando o tempo que restava.
Após a saída de Mendes, Lucas correu para a Sala de Prontuários. O código de Helena funcionou com uma precisão assustadora, elevando seu acesso a um nível que ele jamais soubera existir. O relógio na tela piscava: Purga de Logs: 07:42 minutos.
Ele forçou a busca pelo diretório de pacientes experimentais. Não encontrou logs de óbito, mas uma lista denominada 'Projeto de Sustentabilidade Clínica'. O nome de Helena estava lá, classificado como 'Recurso Disponível'. Lucas desceu a barra de rolagem, o coração martelando contra as costelas, até que seus olhos travaram em uma linha que parecia ter sido escrita para destruí-lo: seu próprio nome, listado como o próximo 'paciente descartável' para a câmara de purga.