Prontuário Fantasma
O relógio digital na parede da sala de auditoria, um retângulo de LEDs vermelhos, marcava 03:42. Faltavam exatos dezoito minutos para a purga automática dos logs de erro. Em São Paulo, a chuva batia contra o vidro reforçado do hospital com a cadência de um martelo, abafando o mundo lá fora, mas incapaz de silenciar o zumbido dos servidores que, a cada segundo, devoravam evidências de negligência institucional.
Lucas Viana mantinha os dedos rígidos sobre o teclado mecânico. O som dos cliques era o único ritmo que ele permitia em sua rotina de investigador de auditoria. Na tela, o prontuário 4092-B não era apenas um arquivo; era uma sentença. O paciente, um homem de sessenta anos, fora declarado morto por insuficiência cardíaca às 03:14. O log de medicamentos, porém, revelava uma dose maciça de um sedativo experimental injetada às 03:09. O protocolo exigia uma dosagem dez vezes menor. Não era erro humano. Era uma execução técnica.
Lucas sentiu o suor frio escorrer pela nuca. Ele clicou na assinatura digital do responsável pela prescrição. O nome apareceu com uma lentidão que parecia calculada: Dr. Mendes. O ar na sala tornou-se rarefeito. Mendes não era apenas o diretor clínico; era o pilar da instituição, o homem que assinara a autorização de transferência de Helena, irmã de Lucas, para a ala de cuidados intensivos. O mesmo setor onde o prontuário 4092-B fora gerado.
Ele tentou copiar o arquivo para um pen drive. O sistema travou. Antes que pudesse forçar o comando, uma sombra bloqueou a luz do corredor.
— Auditoria externa ou curiosidade mórbida, Viana? — A voz do Dr. Mendes cortou o silêncio como um bisturi.
Lucas não se virou de imediato. O sangue drenou de seu rosto, deixando-o com a sensação de estar sendo dissecado. Ele fechou a aba do prontuário, mas o movimento foi lento demais. Mendes estava no umbral da porta, a silhueta imponente refletida no vidro escuro da janela, onde a tempestade transformava a cidade em um borrão de luzes cinzentas.
— Apenas conferindo inconsistências de rotina, Diretor — respondeu Lucas, a voz firme apesar da mão trêmula sob a mesa.
— O hospital não é um lugar para encontrar fantasmas, Lucas. É um lugar onde curamos pessoas. Se você começar a ver problemas onde existem apenas procedimentos complexos, sua carreira aqui terminará antes do final deste plantão. — Mendes aproximou-se, o cheiro de café caro e desinfetante clínico impregnando o espaço. Ele olhou para a tela, depois para Lucas, com um sorriso que não alcançava os olhos. — Sua irmã, Helena, está em um tratamento delicado. Seria uma pena se uma mudança de turno ou uma revisão de convênio tornasse a permanência dela aqui… insustentável.
O recado foi entregue com a precisão de quem conhece exatamente onde aplicar a pressão. Mendes deu meia volta, deixando o eco de seus passos pelo corredor. Lucas esperou até que o som desaparecesse para retomar o acesso. Ele sabia que estava sendo vigiado por câmeras internas, mas a necessidade de resposta era um vício que ele não podia mais controlar.
Sozinho, Lucas acessou o terminal de internação crônica. O relógio marcava 03:52. Faltavam oito minutos para a purga. O sistema tentou negar o acesso, mas ele usou o script de bypass que desenvolvera durante anos como peão daquele hospital. A tela piscou em vermelho antes de abrir o arquivo de Helena.
O pânico subiu pela sua garganta como bile. O prontuário de Helena exibia exatamente a mesma prescrição de sedativo experimental que causara a morte do paciente 4092-B. A dosagem era a mesma, o horário de administração era o mesmo, e a assinatura digital era a de Mendes. Ele não estava investigando um erro passado; estava olhando para a sentença de morte da sua irmã, agendada para acontecer sob o pretexto de um tratamento que, na verdade, era um experimento em tempo real. O sistema começou a emitir um alarme silencioso, revogando privilégios de leitura, enquanto o contador de tempo chegava aos segundos finais.