Fragmentos de uma Mentira
O ar no subsolo do Setor de Transplantes tinha gosto de ozônio e desinfetante vencido. Lucas Menezes pressionou as costas contra a parede de azulejos, o pulso metálico do sistema de quarentena ecoando como uma contagem regressiva para a sua execução. A luz de emergência, um vermelho intermitente e doentio, transformava o corredor em uma galeria de sombras móveis. Ele tinha 47 horas e 12 minutos antes que o servidor central varresse os registros de óbito do paciente 402.
O dispositivo de extração, conectado ao terminal, vibrava em sua mão. 88%... 94%... O som de botas táticas batendo contra o concreto úmido aproximava-se. Não eram enfermeiros; era a segurança privada de Arantes, homens que não faziam perguntas, apenas limpavam o sistema.
Quando a barra de progresso atingiu 100%, Lucas não viu apenas números. Viu o prontuário original, uma assinatura digital que não deveria existir: o cirurgião-chefe, um nome intocável da elite paulistana, estava presente na sala no momento da morte do paciente 402. O óbito fora acelerado. O órgão fora desviado. Lucas transferiu o pacote para um servidor externo criptografado, sentindo o peso da traição institucional esmagar sua própria moralidade.
Uma grade de ventilação acima dele cedeu com um rangido metálico. Helena Viana, com o rosto manchado de fuligem e os olhos injetados de pânico, estendeu a mão.
— Desça, Lucas! Agora! — ela sibilou.
Ele escalou, o metal galvanizado rasgando seu paletó, enquanto a porta do setor era arrombada abaixo. Eles se arrastaram pelo labirinto de dutos, o cheiro de poeira e desespero sufocante, até emergirem em uma sala de descanso dos residentes. Helena desabou, as mãos trêmulas escondidas nos bolsos do jaleco imaculado.
— Você não deveria ter voltado — ela sussurrou, a voz falhando. — O cartão que você usou... o sistema não apenas o marcou, Lucas. Arantes bloqueou meu acesso e foi à casa dos meus pais esta manhã. Ele sabe que fui eu. Ele não quer apenas a prova; ele quer apagar qualquer um que saiba a verdade.
Lucas sentiu o estômago revirar. Helena entregou-lhe uma chave mestra física, um objeto frio e pesado.
— Saia pelos fundos, pela lavanderia. O hospital já deu ordens para 'limpar' qualquer testemunha. Isso inclui você.
Lucas saiu sob a chuva torrencial de São Paulo. A água gelada, misturada à fuligem da metrópole, escorria por seu rosto enquanto ele corria para o carro. Ao chegar em seu apartamento, o silêncio que o recebeu foi mais aterrorizante que qualquer alarme hospitalar.
A porta estava entreaberta, a fechadura arrombada com precisão cirúrgica. O interior estava em ordem, o que o deixou ainda mais apavorado. O laptop de trabalho estava sobre a mesa, intocado. Arantes não queria roubar dados; ele queria enviar um aviso. Lucas percorreu o cômodo até a estante. O porta-retratos com a foto de sua família, o gatilho de sua culpa e a única conexão que restava com sua vida anterior, havia desaparecido. O espaço vazio na madeira era uma ferida aberta.
Seu telefone vibrou. Um número desconhecido.
— Você encontrou o que procurava, Lucas? — a voz de Arantes era calma, desprovida de qualquer emoção. — Espero que valha a pena. O enfermeiro-chave do caso 402 acabou de desaparecer do hospital. E você, meu caro, não é mais um investigador. Você é o próximo prontuário a ser arquivado.