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Chapter 2: O Preço da Sombra

Lucas tenta extrair os dados do prontuário 402, mas é confrontado por Arantes, que revela estar monitorando seus movimentos. Após obter um cartão de acesso de Helena, Lucas invade o arquivo morto no subsolo, apenas para encontrar os documentos originais substituídos e ser trancado no local pelo sistema de segurança do hospital.

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O Preço da Sombra

O cheiro de ozônio e desinfetante no corredor administrativo do Hospital Santa Cecília era mais espesso do que o normal, como se o ar estivesse sendo filtrado para remover qualquer traço de verdade. Lucas Menezes caminhava rápido, os sapatos úmidos pela chuva de São Paulo que castigava o saguão, deixando pegadas escuras no piso impecável. O drive USB, escondido no bolso interno do paletó, pesava como uma sentença. Ele tinha menos de sessenta horas antes que o próximo ciclo de limpeza do servidor deletasse os registros do paciente 402 — o homem que, oficialmente, morrera duas horas antes de chegar à mesa de cirurgia.

— Lucas, um minuto. — A voz de Arantes não era um pedido; era uma âncora.

Lucas travou. O diretor estava parado à porta de sua sala, a silhueta emoldurada pela luz fria dos fluorescentes. Ele não parecia um gestor hospitalar, mas um carcereiro em um terno de corte impecável. O sorriso que ele ostentava não chegava aos olhos, que permaneciam opacos, avaliando Lucas como se ele fosse um ativo depreciado.

— Diretor. Estou atrasado para a auditoria do setor de óbitos — Lucas mentiu, a voz firme, embora o suor frio começasse a brotar na base de sua nuca.

Arantes deu dois passos à frente, invadindo o espaço pessoal de Lucas. O homem cheirava a café caro e papel selado. — A auditoria pode esperar. Na verdade, ela é redundante. O prontuário 402 já foi processado. Uma falha de digitação, Lucas. Aconselho que foque em casos menos… complicados. Sua carreira é promissora demais para ser desperdiçada em arquivos mortos.

Arantes deu um tapinha no ombro de Lucas, um gesto que parecia mais um aviso de marcação do que uma cortesia. — Vamos alinhar suas prioridades na minha sala. Agora.

Lucas sentiu o peso do drive no bolso. Ele precisava de Helena. Ele precisava da confirmação física.

O encontro no expurgo de materiais foi rápido e claustrofóbico. Helena estava lá, as mãos trêmulas enquanto organizava prontuários. O pânico nos olhos dela era palpável.

— Você não devia estar aqui — ela sussurrou, a voz mal subindo acima do ruído da chuva nas janelas altas. — O Arantes sabe. Ele trocou os códigos de acesso. Minha bolsa de residência está por um fio, e minha família depende desse salário. Você está me destruindo, Lucas.

— O prontuário 402 foi alterado, Helena. Se esse registro desaparecer, a prova de negligência morre com ele. Onde está o original?

Ela hesitou, olhando para a câmera no canto do teto. — Eles não apenas apagaram. Eles moveram o prontuário físico para o Arquivo Morto no subsolo. É um lugar onde a umidade da chuva infiltra tudo. Se você for pego, eu não poderei te proteger.

Ela deslizou um cartão de acesso temporário pela bancada de inox. — É a chave mestra. Mas o sistema de segurança do subsolo é de alta prioridade. Se o alarme disparar, eles saberão que foi o meu código.

Lucas desceu. O subsolo era um labirinto de concreto bruto e canos que pingavam, ecoando como uma contagem regressiva. A água escorria pelas paredes, criando poças que refletiam a luz vacilante das lâmpadas de emergência. Ele inseriu a chave mestra na porta metálica. O mecanismo de trava soltou um chiado agudo.

Lá dentro, o cheiro de mofo era sufocante. Lucas percorreu as prateleiras até encontrar a pasta 402. Seus dedos tocaram o papel, mas ele parou. As páginas principais haviam sido substituídas por formulários em branco, carimbados com a data de hoje. Alguém tinha chegado antes.

Ele conectou o drive a um terminal antigo. A tela piscou em um verde doentio. Acesso concedido. Ele começou a extrair os metadados, mas a ampulheta na tela girava lentamente. De repente, o zumbido da ventilação cessou. O silêncio absoluto foi quebrado apenas pelo som da chuva. A tela mudou para um vermelho agressivo: ERRO DE SEGURANÇA: PROTOCOLO DE QUARENTENA ATIVADO.

As portas magnéticas do arquivo travaram com um estrondo metálico. Lucas ouviu passos pesados se aproximando pelo corredor alagado. As luzes de emergência piscaram e se apagaram, mergulhando o subsolo em uma escuridão total, onde apenas o som da água pingando marcava o fim de seu tempo.

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