Chapter 7
O relógio digital sobre a recepção da Clínica Médica 2 marcava 21h51. Helena sentia o peso do tablet de Bia contra o abdômen, um volume frio e proibido sob o jaleco. O cronômetro interno do hospital era um carrasco: restavam nove minutos para o arquivamento automático do lote noturno. Se o sistema processasse a atualização antes que ela extraísse a prova, a trilha digital seria purificada.
Ela digitou a senha que Caio lhe passara segundos antes de ser levado pela segurança. O terminal piscou, revelando o prontuário 4782-B. Seus olhos correram pela tela: o horário de óbito, 18h42, fora alterado para 18h57. O campo em branco, preenchido pelo perfil DIR-CLIN-01 às 19h03, não era um erro. Era uma assinatura institucional. Helena disparou o obturador do celular. O flash, um estalo de luz branca, pareceu um tiro no silêncio do corredor.
— Identificação, doutora. Agora. — A voz do técnico de plantão cortou o ar. Ele surgiu na porta, o rádio em punho. — Esse terminal é restrito. Seu crachá não consta na lista de acesso desta ala.
Helena fechou a sessão, o coração martelando contra as costelas. O contador marcava 21h54.
— Apenas uma verificação de rotina — ela mentiu, a voz firme, embora o suor frio escorresse por sua nuca.
O técnico não se convenceu. Ele ergueu o rádio. — Segurança, código amarelo na Clínica Médica 2. Acesso não autorizado.
Helena girou e disparou pelo corredor, deixando o técnico para trás enquanto o alerta ecoava. Às 21h58, encontrou Bia na sala de espera dos funcionários. A irmã estava rígida, os braços cruzados.
— Eles sabem, Helena — Bia disse, a voz um fio de navalha. — Lígia interrogou duas enfermeiras. Ordem de silêncio absoluto. Quem mencionar o que aconteceu às 18h42 será transferido para a Zona Leste. É uma ameaça direta.
Helena sentiu o papel amassado em seu bolso, a anotação manual de Bia. — Quem deu a ordem?
— Dr. Gustavo Mendes. Ele passou pela emergência às 19h10. Lígia estava atrás dele. Ela não disse nada, mas o olhar dela era a sentença.
O celular de Helena vibrou. Era uma mensagem de Caio: Eles sabem do pendrive. Saia agora.
Helena correu para o arquivo auxiliar. O sensor biométrico apitou, e ela acessou o sistema com o nome de Mendes. O cursor piscava. Ela cruzou o prontuário 4782-B com o registro de óbito de outro setor. A mesma adulteração. O mesmo perfil de chefia. A porta foi aberta com violência. Dra. Lígia Marconi entrou, a elegância de seu jaleco impecável contrastando com a frieza de seu olhar.
— Afaste-se do terminal, Helena. Você ultrapassou todos os limites.
Helena virou-se, exibindo a imagem do prontuário na tela. — "Ajustes preservam a reputação", Lígia? É assim que você justifica o óbito de 18h42 virar 18h57?
Lígia sorriu, um gesto cortante. — Tarde demais. Caio já confessou a entrega do pendrive. Você não tem nada. A confissão dele torna sua investigação nula. Você é apenas uma auditora com um tablet roubado.
O sangue de Helena gelou. A confissão de Caio era um golpe que ela não previra. Enquanto ela passava por Lígia, o celular em seu bolso vibrou com a prova digital completa. O jogo mudara: não era mais sobre um erro, era sobre a sobrevivência de um sistema que agora sabia que ela era a única ameaça real. O corpo estava sendo movido para o IML, e a verdade, se não fosse revelada nos próximos minutos, seria enterrada junto com ele.