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Chapter 12: O Relógio Para

Bia e Lucas testemunham o colapso final do sistema de Viana enquanto a polícia assume o controle do hospital. Com as provas publicadas e Viana preso, Bia deixa o hospital, livre da dívida institucional e do peso de seu passado, encarando um futuro incerto, porém próprio.

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O Relógio Para

O zumbido dos servidores, antes a trilha sonora da minha ruína, silenciou-se às 05:55. O ar-condicionado da sala técnica falhou com um estalo metálico, o último suspiro de um sistema que, por anos, servira de túmulo para a verdade. O executor, o homem de ombros largos que Viana enviara para apagar meus rastros, recuou dois passos. Ele não olhava mais para mim; seus olhos estavam fixos na porta, onde as luzes das sirenes começavam a varrer as paredes de concreto com um azul intermitente e implacável.

— O upload foi concluído — a voz de Lucas era um fio, mas carregada de uma autoridade que ele nunca tivera. Ele estava sentado no chão, o crachá de administrador que eu lhe dera pendurado no pescoço como um amuleto de sobrevivência. — O servidor está limpo de qualquer comando de purga. A rede está aberta.

O executor ainda segurava a barra de ferro, os nós dos dedos brancos. Ele olhou para o monitor principal, onde o portal de transparência do estado exibia, em letras garrafais, o prontuário 402. A impunidade de Viana acabara de ser convertida em domínio público. O homem soltou a barra de metal. O som seco no piso de borracha foi o ponto final de uma era. Ele virou-se e desapareceu pela saída de emergência, sabendo que o custo de tentar conter a verdade agora superava qualquer bônus prometido pelo hospital.

Eu senti o peso do pendrive original em minha mão. Era apenas um pedaço de plástico, mas pesava como uma vida inteira de silêncios.

O corredor administrativo cheirava a ozônio e desespero. Caminhei com Lucas, nossos passos ecoando no granito. O relógio da recepção, antes um cronômetro para a destruição de provas, marcava 06:02. O tempo da ocultação havia acabado; o tempo das consequências estava apenas começando.

Encontramos o Dr. Arnaldo Viana perto da sala de arquivos. O diretor, geralmente impecável, estava com a gravata frouxa, os olhos injetados, jogando maços de prontuários em uma fragmentadora com uma fúria maníaca. Ao nos ver, ele parou. O silêncio no corredor foi cortado pelo som das botas policiais que subiam a escadaria principal.

— Você não tem ideia do que fez, Bia — a voz de Viana era um sussurro rouco, desprovido de qualquer autoridade. — Destruiu uma estrutura que mantinha este hospital de pé. O nome Rocha... você sabe que está marcado. Eu posso garantir que a dívida do Lucas seja esquecida. Posso dar a vocês a vida que merecem, fora daqui, agora.

Eu parei a poucos metros dele. Não houve ódio, apenas uma clareza fria. Entreguei-lhe uma cópia impressa do prontuário 402. Ele olhou para a própria assinatura, a prova da dosagem letal que ele ordenara. O brilho de poder em seus olhos se apagou, substituído pelo medo visceral de quem percebe que o sistema que o protegia agora o devorava. Viana não ofereceu mais nada. Segundos depois, os agentes federais o interceptaram. O status social que ele cultivara por décadas desintegrou-se sob o peso das algemas.

O saguão do hospital pulsava com a luz estroboscópica das viaturas. Lucas mantinha as mãos nos bolsos do jaleco, os olhos fixos na escadaria onde Viana era escoltado.

— Eles vão levar tudo — sussurrou Lucas. — Os servidores, os logs. A dívida que me prendia... o sistema que a sustentava acabou de ser deletado.

Eu não respondi. Observei um oficial da perícia recolhendo o pendrive que eu deixara no terminal. O sacrifício da minha carreira, a violação de cada protocolo, tudo agora era prova jurídica. Viana cruzou o olhar com o meu por um segundo antes de ser empurrado para a viatura. Não houve ameaça, apenas o reconhecimento mudo de que o jogo havia terminado.

Caminhei em direção à saída principal. O sol da manhã, implacável e limpo, iluminava a fachada austera do hospital, revelando a sujeira que antes passava despercebida. Deixei para trás meu crachá, um peso morto que finalmente não precisava mais carregar. Lucas me esperava perto da porta giratória.

— Está feito — disse ele.

Atravessei as portas de vidro, sentindo o ar fresco da manhã. Não era mais a investigadora submissa. O relógio parou, mas minha vida nunca mais será a mesma.

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