O Relógio Para
O ar no telhado do Hospital Memorial não era apenas frio; era rarefeito, carregado com o cheiro de ozônio e o desespero de um império em colapso. Bia Rocha, com o ombro latejando sob o peso de uma contusão que parecia pulsar em sincronia com as sirenes, estava prensada contra a mureta de concreto. À sua frente, Jairo, o chefe da segurança, não avançava. O rádio em seu cinto, antes um transmissor de ordens brutais, agora vomitava apenas chiados e gritos de pânico vindos do saguão.
— A Federal está dentro, Jairo! — a voz de um subordinado, distorcida pelo rádio, soou como um veredito. — Eles estão levando os servidores. O sistema de purga caiu!
Bia viu o momento exato em que a autoridade de Jairo se desfez. O Livro-Razão Negro não era mais um segredo trancado em servidores blindados; era uma ferida exposta na rede, acessível a qualquer um com um terminal e uma conexão. O relógio de 72 horas, que ditaria sua ruína, havia parado. Com um movimento brusco, ela se desvencilhou, deixando-o paralisado diante da inevitabilidade da queda.
Ela desceu pela escada de incêndio, o metal vibrando sob suas botas, até a ala psiquiátrica. O ambiente era um labirinto de silêncio estéril. Tiago estava algemado a um cano de aquecimento, o rosto uma máscara de hematomas. Quando Bia destravou as algemas com a chave mestra que o hospital acreditava ter incinerado, ele a olhou com uma descrença que beirava o choque.
— O Livro-Razão… — ele sussurrou, a voz um fio de ar. — Não era só sobre óbitos, Bia. Era sobre o sistema de transplantes. Mendes tratava pacientes como peças de reposição para os doadores pagantes.
Bia sentiu um calafrio. O horror era maior do que ela imaginara, uma engrenagem de carne e lucro que ia muito além daquelas paredes. Eles não podiam ficar. Enquanto cruzavam os fundos do hospital, o caos era total. No andar superior, na sala da diretoria, Mendes golpeava o teclado em um frenesi maníaco, tentando desesperadamente apagar um sistema que já não lhe pertencia. A porta foi arrombada com um estrondo. Agentes da Federal, com coletes táticos e armas em punho, inundaram a sala. O homem que fora o rosto benevolente da medicina de elite, o arquiteto de tantas vidas interrompidas, foi jogado ao chão, a algema metálica soando como um tiro no silêncio da diretoria.
Bia e Tiago ganharam a rua. De uma distância segura, ela observou o hospital ser engolido pela luz azul das viaturas. O prédio, antes uma fortaleza impenetrável de segredos e silêncios, parecia agora apenas um esqueleto vazio sob as luzes da madrugada. Ela tateou o bolso e sentiu o peso do celular. A confissão de Mendes, gravada no calor do confronto, era o seguro de vida que ela guardaria.
— O que a gente faz agora? — Tiago perguntou, olhando para a multidão que começava a se aglomerar atrás das faixas de isolamento.
Bia olhou para a tela do aparelho. A contagem regressiva havia sumido, substituída por notificações de notícias que dominavam os telões da cidade. O império de Mendes caíra, mas ela sabia, com a clareza amarga de quem sobreviveu, que aquele hospital era apenas uma célula. O sistema era maior. Mais profundo. Ela apagou a notificação final, guardou o aparelho e, sem olhar para trás, desapareceu na multidão. A verdade custara tudo, mas, pela primeira vez em meses, o tempo era seu.