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Chapter 2: O Preço da Omissão

Beatriz tenta confrontar Lúcia na capela, mas é impedida por seguranças da fundação. Arnaldo tenta suborná-la com uma promoção em troca de silêncio, mas Beatriz recusa. Ao tentar acessar o sistema, ela descobre que está sob auditoria de Nível 4 e que sua foto consta na lista de funcionários a serem 'deletados'. O capítulo termina com a revelação de que a dívida de Lúcia foi quitada pelo hospital usando a identidade do falecido marido.

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O Preço da Omissão

O relógio no pulso de Beatriz vibrou: 68:42:15. O tempo não era apenas uma métrica; era a velocidade com que o Hospital Santa Fé apagava a existência de um homem. Ela atravessou o saguão, onde o mármore polido refletia o brilho dos ícones religiosos dispostos entre os terminais de autoatendimento. A fé ali era um ativo financeiro, e o silêncio, a moeda de troca.

Lúcia estava na capela, os dedos nodosos cravados em um terço. Quando Beatriz se aproximou, dois seguranças da fundação — homens cujos ternos custavam mais que o salário mensal de um enfermeiro — bloquearam o acesso.

— A viúva não está recebendo visitas, Dra. Beatriz — disse o mais alto, a voz destituída de qualquer tom de piedade. — O luto é um processo privado, especialmente quando a fundação já cuidou de todos os trâmites.

Beatriz ignorou a mão que ele pousou em seu ombro, um aviso físico de que sua autoridade ali era nula.

— Lúcia, olhe para mim — Beatriz forçou a voz, ignorando o segurança. — O que eles prometeram? O prontuário foi alterado. Eu vi a discrepância na dosagem. Se você assinou algo, eles estão usando a sua dor para enterrar a verdade.

Lúcia levantou o rosto. Seus olhos, antes vazios, ganharam um brilho de pânico absoluto ao ver o crachá de Beatriz. O celular da viúva vibrou no colo. Ela deslizou o dedo pela tela e o ar pareceu ser sugado do recinto. O pânico de Lúcia não era luto; era o medo de quem acabara de receber uma sentença.

Beatriz foi conduzida para fora por um aperto firme no braço. O destino não era a saída, mas o escritório de Arnaldo.

O administrador estava de pé, observando a cidade através da vidraça. O tique-taque de um relógio de parede antigo, um contraste anacrônico com o tablet sobre a mesa, parecia ditar o ritmo de seu próprio fim.

— Sente-se, Beatriz — Arnaldo não se virou. — Você tem sido uma funcionária dedicada. Talvez dedicada demais a arquivos que não deveriam mais ocupar seu tempo de serviço.

Beatriz permaneceu de pé. Dez minutos antes, ela tentara acessar o prontuário 402 e fora barrada por um erro de Nível 4. O sistema não a tinha apenas bloqueado; a tinha marcado como intrusa.

— O prontuário foi adulterado, Arnaldo. A dosagem oficial não condiz com a realidade clínica. Isso não é um erro de digitação. É um crime.

Arnaldo finalmente se virou. Seus óculos refletiam a luz fria do teto. Ele deslizou um envelope pardo pela mesa. Dentro, um contrato de promoção. O preço de sua alma profissional.

— Se você assinar, o acesso será restaurado e seu erro do passado será apagado da ficha. Se não, você será a próxima a ser deletada. E desta vez, não será apenas o seu login a ser bloqueado.

Beatriz recusou o envelope com um gesto seco. Ao sair da sala, sentiu o peso do olhar de Arnaldo. Ela correu para o terminal de enfermagem, desesperada para contornar o Nível 4. Ao inserir sua senha de emergência, o sistema respondeu com um bipe grave: ACESSO NEGADO – NÍVEL 4: AUDITORIA DE SEGURANÇA EM CURSO.

O computador travou antes de exibir uma pasta oculta: 'Monitoramento de Integridade'. Lá, entre dezenas de nomes de funcionários demitidos, estava sua própria foto, capturada minutos atrás no corredor. O sistema não estava apenas deletando prontuários; estava apagando sua carreira.

Ela voltou ao saguão, a mente girando. Lúcia estava perto da porta giratória, o celular ainda na mão. Beatriz viu a viúva estender o aparelho. Na tela, o aplicativo do banco mostrava que a dívida impagável da família fora quitada. O campo de 'Remetente' não trazia um banco, mas o nome do marido falecido, inserido via sistema interno do hospital.

— Ele pagou, Beatriz — sussurrou Lúcia, a voz falhando em um terror absoluto. — Como ele pôde pagar se ele está morto?

Beatriz sentiu o estômago revirar. O hospital estava usando o nome do morto para lavar o crime e comprar o silêncio da viúva. Enquanto a contagem regressiva caía para 60 horas, ela percebeu que a armadilha estava fechada. Ela não era apenas uma investigadora; era o próximo alvo do expurgo.

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