Protocolo de Exclusão
O zumbido dos drones de patrulha não era um som, era uma pressão física contra o tímpano. Elias colou o corpo contra o concreto úmido de um duto de ventilação no Setor 4, o ar cheirando a ozônio e lixo industrial. No bolso interno de seu casaco, a relíquia pulsava — um peso inerte que, agora ele sabia, emitia uma assinatura eletromagnética capaz de atravessar paredes de chumbo. O cronômetro em sua retina, uma mancha de neon que ele não conseguia piscar para longe, marcava 05 dias, 21 horas e 03 minutos para a Permanência.
Ele não estava apenas fugindo; ele estava sendo caçado por um algoritmo que conhecia seus padrões de respiração melhor do que ele mesmo.
O dispositivo de comunicação criptografada, escondido no forro do casaco, vibrou. Elias conectou o cabo de fibra ótica, sentindo o calor do hardware improvisado contra a pele gelada.
— Beatriz? — ele sibilou, a voz falhando.
— O Feed está limpando o setor, Elias. Não é apenas o objeto — a voz dela era um fio de tensão, cortada por estática. — Eles estão deletando qualquer pessoa que tenha cruzado o caminho da relíquia nas últimas quarenta e oito horas. Você não é mais um dissidente; você é um erro de sistema que precisa ser corrigido antes da próxima atualização.
Elias olhou para a relíquia, o metal frio queimando sua mão. — Eu decodifiquei o log. O trauma do meu pai... o sistema foi desenhado em cima da dor dele. Eles não estão apenas governando a cidade, eles estão minerando o nosso luto.
— Eles sabem que você viu — Beatriz interrompeu, o tom subitamente desprovido de esperança. — A relíquia não é uma prova, Elias. É um farol. Eles permitiram que ela chegasse até você para mapear quem mais, além de você, teria coragem de questionar a narrativa oficial. Eu estou sendo monitorada dentro da fundação. Eles já estão na minha porta.
Um estrondo metálico ecoou do outro lado da linha, seguido pelo som inconfundível de portas de segurança sendo arrombadas. O silêncio que se seguiu foi absoluto. Beatriz não desligou; a conexão foi simplesmente cortada do servidor central.
Elias sentiu o suor frio escorrer pelas costas. Ele estava sozinho, sem identidade digital, sem dinheiro e carregando o objeto que o tornava um alvo em movimento. O cronômetro avançou: 05 dias, 20 horas e 58 minutos. O Feed não estava apenas caçando-o; o Feed estava usando a relíquia para atrair todos os seus contatos para a mesma armadilha.
Ele se arrastou para fora do duto, a chuva batendo em seu rosto como agulhas. O céu acima do setor industrial estava tingido de um azul antinatural, o brilho dos drones de vigilância formando uma rede que se fechava a cada segundo. Ele precisava de um novo refúgio, mas cada passo que dava com a relíquia no bolso era um sinal enviado para o centro de controle.
Elias olhou para o horizonte, onde as luzes da metrópole pareciam zombar de sua insignificância. Ele não tinha mais como se esconder. A única forma de sobreviver era transformar o farol em uma arma, mas para isso, ele precisava que Beatriz estivesse viva. E, pelo que acabara de ouvir, ela estava prestes a perder tudo o que a protegia. O jogo mudara: a caçada não era mais sobre a verdade, era sobre quem seria apagado primeiro. Ele começou a correr, não para se esconder, mas para encontrar Beatriz antes que o Feed a transformasse em um registro permanente de silêncio.