Novel

Chapter 9: O Servidor Fantasma

Elena, guiada pelas coordenadas de Marcus, invade o Museu da Pátria na madrugada sob chuva torrencial e descobre que o servidor mestre do Feed está escondido na base da estátua principal. Conecta o conector da relíquia e inicia o overwrite, mas a infiltração da chuva ameaça destruir o hardware. Marcus aparece com homens armados, revela que a atraiu deliberadamente para o local e ordena cortar a energia, interrompendo o processo em apenas 3%.

Release unitFull access availablePortuguese / Português
Full chapter open Full chapter access is active.

O Servidor Fantasma

A chuva batia nos ombros de Elena como socos abafados. Ela corria pela calçada alagada da Rua do Oratório, os tênis chapinhando em água preta que subia até os tornozelos. O celular vibrava sem parar no bolso — a mesma notificação desde que deixara o corpo de Léo para trás, a menos de dois quilômetros dali. Desviou de um carro parado com faróis acesos, o motorista filmando a rua com o celular na mão. Mais um espectador. Mais um par de olhos que o Feed podia comprar em segundos.

Chegou ao ponto de ônibus abandonado na esquina da Domingos de Moraes. O vidro estilhaçado deixava entrar rajadas de água. Elena se encolheu contra a parede de azulejo sujo, tirou o celular com dedos encharcados e abriu a mensagem de Marcus. Coordenadas GPS. Latitude e longitude exatas. Endereço: Museu da Pátria, ala central, base da estátua do Ipiranga. Abaixo, só uma linha: “Você tem 12 horas. Traga o conector. Ou o nome do seu avô vira manchete global antes do amanhecer.”

O estômago dela virou. Não era a Subestação 7 em Vila Leopoldina. Era o museu. O lugar para onde a relíquia seria transferida em menos de 48 horas. O lugar onde o Feed se tornaria permanente em 24. Apertou o conector da relíquia contra o peito, dentro do sutiã, o metal frio contra a pele quente. Marcus sabia. Sabia exatamente onde o servidor offline estava escondido. E estava convidando-a para entrar na armadilha dele.

Apagou a mensagem, guardou o celular e virou na direção do Museu da Pátria. O cronômetro no canto da tela marcava 23:12:41. Cada segundo que perdia era um prego a mais no caixão da verdade.

Parou o táxi pirata três quadras antes. O motorista nem olhou para trás quando ela entregou as notas molhadas e saiu correndo para a calçada alagada. Eram 03:47. Restavam pouco mais de 23 horas. A chuva caía em lâminas grossas, batendo no capuz do casaco impermeável roubado da prima. Contornou o quarteirão pela lateral oeste, rente aos muros grafitados, onde as câmeras externas do museu tinham ângulos mortos conhecidos desde as coberturas de 2018.

Chegou à entrada de serviço dos funcionários. Porta de aço cinza, cadeado magnético — padrão antigo, cartão de proximidade. Tirou do bolso interno a carteira de identificação vencida de repórter credenciada ao museu, colada com fita adesiva a um pedaço de cartão de crédito cortado em formato de shim. Inseriu. A fechadura hesitou dois segundos — tempo suficiente para o coração pular na garganta — e abriu com um estalo baixo.

Entrou. O corredor de serviço cheirava a cloro e mofo. Luzes de emergência amarelas piscavam a cada dez metros. Avançou rápido, sapatos encharcados deixando pegadas escuras que a chuva logo apagaria. Subiu uma escada interna até o saguão principal. A estátua do Ipiranga dominava o espaço: o cavaleiro de bronze erguido sobre o pedestal de granito, espada apontada para o futuro que nunca chegou. Elena contornou a base. No lado posterior, quase invisível na penumbra, uma placa de aço no chão exibia parafusos recentes, marcas frescas de lixa. Alguém tinha aberto e fechado aquilo há pouco tempo.

Forçou a placa com uma barra de ferro encontrada num armário de manutenção. A tampa cedeu com um gemido metálico. Uma escada descendente estreita e úmida apareceu, degraus de metal corroído desaparecendo na escuridão. Elena acendeu a lanterna do celular e desceu.

A água já lambia o penúltimo patamar — gelada, preta, cheirando a ferrugem e mofo antigo. Vinte e três horas e quarenta e oito minutos até o Feed se fechar para sempre. O cronômetro não parava de lembrar. A sola do tênis afundou na água com som de sucção. O frio subiu pelas canelas como agulhas. Apertou a relíquia contra o peito, o conector embrulhado no pano impermeável que Léo costurara às pressas semanas antes. Léo. O nome doía mais que a água gelada.

A câmara sob a estátua era um cubículo de concreto nu, paredes marcadas por infiltrações antigas. No centro, um rack industrial enferrujado sustentava três servidores torre, um deles piscando fracamente com luzes verde e âmbar. A base da estátua atravessava o teto como uma coluna grossa, e ali, quase no chão, a placa removível já estava solta. Elena largou a mochila na borda da água que subia. Abaixou-se, joelhos dentro da água gelada, e terminou de soltar os parafusos com a chave de fenda do bolso traseiro. Cada giro rangia alto demais naquele silêncio.

Abriu o painel. Um porto oculto, padrão antigo, intocado pelo Feed. Encaixou o conector com um clique seco. Um tablet roubado de um segurança no saguão superior piscou: Overwrite iniciado. Progresso: 0,4%. Tempo estimado: 7h14min. Sete horas. Com 12 horas restantes até o Feed se fechar para sempre.

A câmara cheirava a mofo e óleo queimado. A chuva infiltrava-se por uma fenda no teto abobadado, pingando em fios grossos que batiam no metal do rack como tiros espaçados. Elena arrancou o casaco encharcado e o esticou sobre o conector exposto, tentando desviar o grosso da água.

— Anda logo — murmurou, dentes batendo.

O upload subiu para 0,7%. O peito afrouxou por meio segundo. Então ouviu os passos. Botas pesadas descendo a escada de metal em ritmo militar. Vozes abafadas, ordens curtas. Apagou a lanterna e se encostou na parede fria, coração martelando.

A luz de lanternas táticas varreu a câmara. Três feixes, depois quatro. A silhueta inconfundível de Marcus surgiu no último degrau. Sem paletó, camisa social colada no corpo pela chuva, cabelo penteado para trás ainda impecável.

Ele parou a cinco metros, os homens armados se espalhando em semicírculo.

— Elena. — A voz dele saiu calma, quase paternal. — Você chegou exatamente onde eu queria.

Ela apertou o tablet contra o peito. Progresso: 1,2%.

— Sempre soube que o servidor estava aqui — continuou Marcus. — Usei as coordenadas para trazer você até o ponto sem escapatória. Mas ainda dá tempo de parar isso. Entregue o conector. Eu apago seu nome, apago o vídeo, apago tudo. Seu avô fica onde está: uma nota de rodapé que ninguém lê.

Elena sentiu o frio subir até o pescoço.

— Você matou meu pai — disse ela, voz rouca. — Matou Léo. E agora quer que eu confie?

Marcus deu um passo à frente. A água batia nos tornozelos dele também.

— Eu ofereci uma saída. Você escolheu o caminho difícil. — Ele fez sinal para um dos homens. — Corte a energia.

Um dos seguranças moveu-se para o quadro elétrico na parede. Elena segurou o conector com força. A luz piscou. O upload travou em 3%. O servidor central estremeceu, ventiladores gemendo mais alto, como se soubesse que o tempo tinha acabado.

Member Access

Unlock the full catalog

Free preview gets people in. Membership keeps the story moving.

  • Monthly and yearly membership
  • Comic pages, novels, and screen catalog
  • Resume progress and keep favorites synced