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Chapter 7: A Máscara de Marcus

Elena escapa do prédio invadido e atende uma ligação direta de Marcus, que oferece apagar seu nome em troca da relíquia. Ela o força a confirmar conhecimento sobre a assinatura digital e o padrinho. Em seguida, invade um cybercafé e injeta uma pergunta devastadora na live dele, expondo Antônio Ribeiro de Almeida como financiador. Marcus hesita ao vivo, rachando sua imagem pública e explodindo o engajamento. No esconderijo da prima, recebe um vídeo criptografado que o incrimina na morte do pai. Ela responde com a frase definitiva e bloqueia o canal. Passos pesados param diante da porta enquanto o contador chega a 34 horas.

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A Máscara de Marcus

A chuva castigava o orelhão de zinco como se quisesse enterrar a cidade inteira. Elena encostou a testa no vidro embaçado, o peito ainda ardendo da corrida escada abaixo. O conector da relíquia queimava contra as costelas, metal frio e úmido dentro da jaqueta rasgada. Trinta e seis horas e quatorze minutos. O Feed se fecharia para sempre em um dia e meio.

O celular vibrava contra a coxa. Número bloqueado. Ela atendeu antes do segundo toque, mantendo o aparelho afastado como se fosse uma arma carregada.

— Elena.

A voz de Marcus chegou limpa, grave, quase carinhosa. O mesmo tom das lives de gala, das entrevistas onde ele posava de guardião da memória nacional.

— Você está bem, menina?

Ela não respondeu. Contava os segundos em silêncio. Um. Dois. Três.

— Sei que está com raiva — continuou ele. — Sei que está com o conector. Não precisa fingir. Eu sei o que seu pai descobriu naquela relíquia. Sei o que está escrito no recibo. Mas ainda dá tempo de você sair inteira disso tudo.

Elena apertou o aparelho até os dedos doerem.

— Inteira como meu pai saiu? Freios cortados na BR-116. Relatório oficial de acidente. Você mesmo assinou a liberação da perícia, não foi?

Do outro lado, um silêncio curto. Suficiente.

— Entregue a relíquia no Museu da Pátria amanhã às dez. Eu apago seu nome dos arquivos. A narrativa volta a ser a oficial: seu avô, o herói; seu pai, o infeliz que não aguentou a pressão. Você recupera a reputação. Sua família não vira piada eterna no Feed. É um bom acordo, Elena.

Ela sentiu o gosto metálico na boca. O conector no bolso parecia pulsar, vivo.

— E o Ministro Antônio Ribeiro de Almeida? O padrinho de casamento do meu pai. Ele também some da lista de financiadores iniciais do Feed? Ou só eu desapareço?

Marcus riu baixo, controlado.

— Cuidado com o que você acha que sabe. Algumas verdades são pesadas demais para quem já está correndo.

Elena desligou no meio da frase. Imediatamente o aparelho apitou: a ligação estava sendo fragmentada e enviada em pedaços para dezenas de influenciadores pagos. O espetáculo já começava a mastigar sua recusa.

Ela saiu do orelhão correndo, a chuva encharcando tudo outra vez.

Quinze minutos depois, empurrou a porta enferrujada do cybercafé na Penha. O sino tilintou uma nota morta. Ar de cigarro velho, suor e plástico quente. Três ventiladores rangiam no teto, jogando sombras quebradas nas paredes descascadas. Escolheu a cabine do fundo, a única sem câmera aparente.

Abriu o notebook surrado, plugou o pen drive com o script de injeção. Na tela principal, a live de Marcus já rolava. Estúdio envidraçado do Instituto da Memória Nacional. Terno cinza perfeito, sorriso de quem controla o jogo.

— ...preservação da verdade coletiva não pode ser refém de revisionismos baratos — dizia ele, gesticulando com elegância.

Elena digitou o comando. O script sequestrou o campo de perguntas anônimas e injetou a frase antes que o moderador automático pudesse engolir:

“Por que o Ministro Antônio Ribeiro de Almeida, padrinho de casamento do meu pai, aparece como financiador inicial do Feed no documento oculto da relíquia que você diz não existir?”

A pergunta subiu. Fixou-se no topo do chat. Milhares de visualizações em segundos.

Marcus leu. Hesitou. Dois segundos inteiros — eternos na internet. A máscara rachou: o sorriso congelou, o olhar vacilou para o lado, procurando o produtor fora de quadro. O delay foi fatal.

— Essa é... fake news reciclada — respondeu ele, recuperando o tom, mas a voz saiu um tom mais aguda. — Tentativas desesperadas de desestabilizar o processo de fechamento do Feed. O Ministério já está investigando a origem dessa calúnia.

O chat explodiu. Memes, prints, teorias. #MarcusRachou começou a trending em tempo real. Alguém já havia gravado os dois segundos de hesitação e estava loopando em câmera lenta.

Elena sentiu um frio na barriga que não era só medo. Era vitória pequena, cara. O dono do cyber, um homem magro de olhos vermelhos, apareceu atrás dela.

— Menina, duas vans pretas subindo a rua. Sem placa. Sai agora.

Ela arrancou o pen drive, fechou o notebook com um golpe e correu pela porta dos fundos, mergulhando outra vez na chuva. Trinta e quatro horas e cinquenta e um minutos.

O apartamento da prima distante no Ipiranga cheirava a mofo e abandono. Luz cortada. Elena trancou a porta com as mãos tremendo, iluminada apenas pela tela do celular. Sentou no chão, costas na parede úmida, o conector ainda no bolso como uma granada sem pino.

O app criptografado apitou. Mensagem de Marcus. Sem texto. Apenas um vídeo de doze segundos e as palavras: “48 horas, Elena. Última oferta.”

Ela abriu.

Imagem granulada. O escritório do pai, noite do crime. Marcus de costas, mexendo na mesa. No frame pausado, o conector da relíquia refletia a luz da luminária — exatamente o mesmo que ela carregava agora. Na mão dele.

Elena sentiu o estômago revirar. A memória oficial era suicídio. A real, freios cortados. Ali estava a prova física que Marcus havia tocado na relíquia antes de mandar matar seu pai.

Dedos voando, ela respondeu uma única frase:

“Eu sei o que você fez com meu pai.”

Enviou. Bloqueou o canal.

Silêncio.

Então, do corredor escuro do prédio, passos pesados. Lentos. Controlados. Pararam exatamente em frente à porta.

Elena congelou, celular quente na palma. O coração batia tão forte que parecia ecoar nas paredes.

Três batidas secas. Não educadas. De quem já sabe que a presa está dentro.

Ela olhou para o conector na mão. A única chave capaz de acessar a Subestação 7 e destruir o espelho offline do Feed antes que a mentira virasse verdade eterna.

A máscara de Marcus havia rachado ao vivo. Mas agora ele estava aqui, do outro lado da porta fina, e o relógio marcava trinta e quatro horas.

Elena apertou o conector até o metal marcar a pele.

A caçada acabara de entrar no esconderijo.

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