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Chapter 2: O Preço da Pista

Elena escapa de seu apartamento após ser identificada pelo sistema de segurança de Marcus. Ela força um contato, Beto, a revelar a localização da relíquia, apenas para descobrir que o local é uma armadilha. Ao acessar o sistema, Elena encontra seu próprio nome em uma lista de alvos, revelando que sua história familiar está intrinsecamente ligada à farsa que ela tenta desmascarar.

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O Preço da Pista

O som na porta não era de um policial; era o ritmo clínico de quem não precisa de mandado. Elena sentiu o ar do apartamento, no centro de São Paulo, tornar-se rarefeito. Na tela do monitor, a contagem regressiva do Feed brilhava em um vermelho estático: 143:59:12. O tempo para a verdade se tornar imutável estava derretendo, e ela acabara de ser marcada como um erro no sistema.

Ela não olhou pelo olho mágico. O sistema de segurança da rede de Marcus não cometia erros de rastreio; se eles estavam ali, sua identidade digital já era um livro aberto. Elena saltou da cadeira, sentindo o peso da traição de seu próprio provedor. O cursor piscava, informando que todas as suas contas bancárias haviam sido congeladas sob o protocolo de 'proteção de ativos institucionais'. Estava morta para o sistema financeiro, sem um centavo para comprar uma saída.

— Elena, sabemos que você está aí — a voz do outro lado era abafada pela madeira maciça, carregada de uma calma que gelava o sangue. — O Feed não tolera ruído.

Ela não respondeu. Correu para o servidor caseiro, onde guardava os metadados da livestream. Se levasse o drive, seria rastreada pelo sinal. Se o deixasse, a prova da farsa seria apagada. Com um movimento brusco, ela extraiu o chip, destruiu o hardware com um martelo e, enquanto o barulho de arrombamento começava na porta, disparou pela escada de incêndio, perdendo sua única fonte de rendimento estável no processo.

A chuva em São Paulo não lavava nada; apenas empurrava a sujeira para os bueiros e escondia o que não deveria ser visto. Elena ajustou o capuz, sentindo o peso do celular contra a coxa como uma granada sem pino. O contador, refletido na poça de óleo sob seus pés, marcava 119 horas e 42 minutos. Beto estava sentado em uma mesa de plástico bamba no canto de um bar decadente sob o viaduto, o rosto iluminado pela luz amarelada de um néon que piscava em ritmo de agonia. Ele nem levantou os olhos quando Elena se sentou.

— Você está queimada, Elena — disse ele, a voz rouca. — O sistema daquela livestream não era um filtro comum. Era uma varredura de biometria comportamental. Você não foi apenas vista; você foi catalogada.

Elena deslizou um envelope sobre a mesa, sua última reserva financeira.

— Preciso da localização do armazém da logística da Fundação Marcus. Agora.

Beto empurrou o dinheiro de volta com um movimento seco. — Eu tenho uma família. Se eu te der esse endereço, a próxima coisa que vão apreender é a minha vida. Eles não estão só guardando objetos. Estão limpando o passado.

— E você acha que vão deixar você fora disso? — Elena inclinou-se, a voz cortante. — Eu sei sobre o desvio de carga em 2022, Beto. Se a curadoria de Marcus descobrir que você vendeu o manifesto, você não será apenas demitido. Você será apagado do histórico.

O rosto de Beto empalideceu. Ele escreveu um endereço em um guardanapo úmido. — O armazém 42. Mas escute, Elena: o objeto é uma isca. Eles sabem que alguém viria atrás dele. O local é uma armadilha monitorada para identificar dissidentes.

Elena chegou ao complexo industrial sob a chuva torrencial. O letreiro de neon do armazém 42 piscava, um tique nervoso que parecia ditar o ritmo de seu próprio coração. Ela conectou o decodificador portátil ao terminal de serviço na parede externa. O feed de segurança carregou, granulado pela interferência da tempestade. Ela viu o interior: corredores estéreis, luzes frias e, no pedestal central, a relíquia. O objeto que deveria ter virado cinzas no incêndio que destruiu o nome de sua família anos atrás brilhava sob os holofotes.

Mas o armazém estava vazio, exceto por uma única cadeira posicionada em um ângulo perfeito para o monitoramento. Encolhida no vão de um beco, Elena sentiu o frio metálico do smartphone contra a palma da mão suada. Um zumbido de baixa frequência vibrou acima de sua cabeça. Um drone de vigilância varria o beco, sua luz de busca cortando a penumbra como um bisturi. Ela acessou o diretório criptografado que Beto havia deixado vazar. Seus dedos tremiam ao navegar pela lista de 'alvos prioritários'.

Quando ela tocou na linha correspondente à sua própria identificação, o ar pareceu rarefeito. Não era apenas o seu nome. Havia uma foto de sua infância, tirada nos jardins da propriedade da família, ao lado da relíquia original. O selo de 'Ameaça de Integridade ao Feed' piscava em vermelho ao lado de um dossiê que conectava seu sobrenome a uma série de fraudes históricas que ela sempre acreditou serem obra de terceiros. Com o contador marcando 120 horas, ela compreendeu a armadilha: ela não era apenas uma investigadora, ela era a peça final de um sacrifício planejado. O único jeito de sobreviver era roubar a relíquia antes que Marcus a destruísse, pois, dentro dela, o compartimento oculto escondia a prova que não apenas validava a farsa, mas incriminava sua própria linhagem.

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