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Chapter 2: O Livro-Razão de Sangue

Lucas sai do cartório com a certidão que confirma sua responsabilidade solidária pela dívida de R$ 1.840.000,00 e a procuração que ele não se lembra de ter assinado. Na loja, sob o olhar vigilante de Mei, ele encontra o livro-razão escondido no assoalho. O registro revela que o pai não era apenas devedor, mas fiador moral de todo o bairro, mantendo-o unido por uma rede de favores, silêncios e chantagens suaves contra a gentrificação liderada por Sr. Wei. Mei entrega a Lucas um envelope selado escrito pelo pai.

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O Livro-Razão de Sangue

O cartório ainda cheirava a café frio e papel velho quando Lucas saiu. A certidão de dívida solidária pesava no bolso interno do paletó como uma pedra quente. R$ 1.840.000,00. Assinada em 17 de março de 2025 — uma semana depois do enterro. A assinatura dele, idêntica à dos projetos que assinava em São Paulo, estava ali, ao lado da do pai morto. Procuração antiga, dizia o texto. Registrada, carimbada, inquestionável.

Ele não se lembrava de ter assinado nada.

A rua da loja estava mais quieta do que na véspera. Uma placa nova de “Vende-se” vermelha brilhava na fachada ao lado, colada sobre tapume cinza. O ronco distante de britadeira subia em batidas regulares, como se a cidade respirasse demolição. Lucas empurrou a porta da Loja de Importados Chen. O sino tilintou uma nota seca.

O ar lá dentro estava parado, grosso de incenso velho e poeira. Ele largou a pasta do cartório no balcão e abriu a primeira gaveta sem pensar. Recibos amarelados, contas pagas em dinheiro vivo, listas de mercadorias que nunca chegaram ao porto. Nada que provasse falsificação. Só silêncio em camadas.

Pela vitrine embaçada, Mei observava da calçada. Braços cruzados, queixo erguido, avental ainda amarrado. Não entrava. Só vigiava. Cada gaveta que ele puxava, o olhar dela acompanhava como se Lucas estivesse revirando cinzas de alguém vivo.

Ele se abaixou atrás do balcão, abriu o armário baixo. Caixas de papelão desabaram. Envelopes se espalharam pelo chão. Entre as tábuas do assoalho, uma parecia menos suja — junta limpa, sem a crosta preta dos outros cantos. Passou os dedos. A madeira cedeu um milímetro.

— Não toca nisso.

Mei estava na porta. Entrara sem barulho. Cheiro de alho e molho shoyu grudado na roupa.

— Você não tem direito — disse ela, voz baixa, mas firme.

— Legalmente tenho.

Lucas manteve o dedo na junta.

— Seu pai deixou isso aqui por um motivo. E o motivo não era você.

— Então por que estou preso a quase dois milhões que não pedi?

Mei respirou fundo. O peito subiu uma vez só.

— Porque ele achava que você voltaria. E que entenderia.

Lucas forçou a tábua. A madeira rangeu e cedeu. Mei deu meio passo, mas parou.

Ele enfiou a mão no espaço escuro. Tateou poeira, teias, até sentir couro frio. Puxou. O livro-razão veio à luz: pesado, encadernado em couro rachado, bordas comidas por traças. Na capa, em tinta desbotada: 2025.

Sentou-se no chão, costas contra a prateleira de latas de chá Pu-erh. Abriu na primeira página. A letra do pai — traços apertados, números alinhados, nomes em cantonês misturado com português torto.

17/03/2025 — R$ 1.840.000,00 — Wei Importação e Exportação Ltda. Assinatura solidária: Chen Wei Lun (falecido) e Chen Lucas (procuração outorgada).

Folheou para trás. Janeiro 2025. Mei — alvará atrasado — favor pago com 3 meses de aluguel adiantado + silêncio sobre empréstimo anterior.

Dona Clara, padaria — R$ 42.000,00 — pago com terreno da família em troca de não falar sobre o empréstimo de 2018.

Seu Jorge, barbearia — garantia de aluguel por dois anos — em troca de testemunho falso em processo contra Wei em 2022.

Página após página: favores, silêncios comprados, chantagens suaves. O pai não era o devedor principal. Era o fiador moral. O homem que costurava o bairro inteiro com dívidas que não apareciam em extrato bancário.

Lucas fechou o livro. O couro estalou seco.

Mei aproximou-se. O assoalho rangeu sob os chinelos. Ele notou a mancada leve na perna esquerda — talvez antiga, talvez de algum tombo que ninguém contava.

— Me diga o que isso significa — pediu ele, batendo na capa com os nós dos dedos. — Aqui está escrito que meu pai emprestou para o Seu Jorge pagar aluguel em 2019. E que o Seu Jorge pagou com o terreno da família em troca de silêncio. Silêncio sobre o quê?

Mei parou a um metro.

— Sobre o que seu pai fez para impedir que o Sr. Wei comprasse tudo de uma vez. Ele assinou a dívida com Wei sabendo que nunca pagaria. Era a única forma de manter o quarteirão inteiro fora do alcance dele. Cada favor, cada nome nesse livro era uma corrente que prendia o bairro a ele. E agora… a você.

Lucas sentiu o peso do couro nas mãos. O couro parecia mais quente do que deveria.

— Então a dívida não é para destruir a loja. É para impedir que Wei demole tudo hoje mesmo.

Mei assentiu devagar.

— Seu pai sacrificou a própria reputação. Deixou todo mundo achar que era um devedor ruim. Mas era o contrário. Ele era o que segurava a gentrificação com as próprias mãos.

Ela tirou do bolso do avental um envelope selado, amarelado, com o nome “Lucas” na letra do pai.

— Ele escreveu isso pra você. Caso você voltasse. Caso entendesse.

Lucas pegou o envelope. Não abriu. Ainda não.

Olhou para Mei.

— E agora? Eu assino a venda e deixo o bairro cair? Ou fico e viro o que ele era?

Mei não respondeu de imediato. Seus olhos estavam fixos no livro-razão — um registro de favores que ligava cada morador ao seu pai, incluindo o homem que tentava despejá-los.

O silêncio da loja parecia gritar.

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