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Chapter 1: O Leilão das Máscaras

Lucas Viana é humilhado publicamente por seu tio Ricardo durante um leilão de elite. Quando o principal investidor da família sofre um colapso médico súbito, Lucas ignora as ordens de afastamento e assume o controle da situação, forçando um confronto direto com a autoridade de Ricardo diante de todos os presentes.

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O Leilão das Máscaras

O ar no salão do Leilão Viana era denso, saturado pelo perfume caro e pela tensão de homens que mediam seu valor em quilates de jade. No centro do estrado, Ricardo Viana, o patriarca, ajustava o punho da camisa com a frieza de quem não apenas possuía o leilão, mas a própria realidade daquelas pessoas. Ao seu lado, Lucas Viana permanecia em silêncio, a postura rígida, vestindo um terno que, embora impecável, era visto pela elite presente como uma fantasia de luxo sobre um corpo que não lhe pertencia.

— Vejam bem — a voz de Ricardo ecoou pelo sistema de som, destilando veneno suficiente para silenciar as conversas paralelas. — Meu sobrinho, Lucas. Um homem que trocou o bisturi pela insignificância. Dizem que, se não fosse pelo nome que carrega, ele não teria nem cadeira para sentar nesta noite.

Uma risada contida percorreu o ambiente, como o roçar de seda em salão de festas. Helena, sentada na primeira fila, estreitou os olhos, observando Lucas como se ele fosse um espécime biológico curioso, mas irrelevante. Para a alta sociedade paulistana, Lucas não era um médico; era o erro de percurso da linhagem Viana, o parente que precisava ser mantido na sombra para não manchar o brilho do império. Lucas sentiu o peso do desprezo, mas não vacilou. Seus olhos, técnicos e precisos, não estavam nas peças de jade expostas. Ele observava o magnata sentado à direita, cujas mãos tremiam levemente — um sintoma que nenhum dos presentes, cegos pela ganância, era capaz de notar.

O martelo de marfim de Ricardo pairou no ar, um convite para que a elite abrisse as carteiras. “A peça que apresento agora”, Ricardo anunciou, a voz carregada de um desdém performático, “representa a pureza que falta a alguns membros da minha própria linhagem.” Ele lançou um olhar cortante para Lucas, provocando novas risadas. “Meu sobrinho insiste em desperdiçar seu tempo em hospitais públicos, longe da sofisticação que este salão exige.”

Helena suspirou, folheando o catálogo com impaciência. Para ela, Lucas era apenas o parente que manchava o sobrenome Viana. Ela não buscava um médico; buscava um parceiro comercial. O ar, contudo, mudou de densidade num segundo. O magnata que liderava os lances, o homem cujos contratos sustentavam as operações hospitalares da família Viana, levou as mãos à garganta. O som que escapou de seus lábios não foi de uma oferta, mas um ruído seco, agudo, de desespero. O homem tombou sobre a mesa de mogno, o rosto tingindo-se de um tom ciano alarmante.

O silêncio que se seguiu não era de respeito, mas de um choque paralisante. Ricardo, com o rosto subitamente desprovido de cor, tentava gesticular para os seguranças enquanto mantinha um sorriso falso e estagnado.

— Apenas uma indisposição passageira, senhores. Nada que um pouco de ar não resolva — mentiu Ricardo, a voz falhando sob a pressão da crise.

Lucas não esperou. Ele sentiu a urgência como uma frequência familiar, um zumbido que ignorava o luxo ao seu redor. Ele sabia o que era aquilo antes mesmo de chegar ao lado do homem: uma obstrução aguda de via aérea, possivelmente um edema de glote fulminante. Cada segundo de hesitação ali custava uma vida e, mais importante para o seu plano, custava o prestígio que Ricardo tanto se esforçava para manter.

— Saia daí, seu inútil! Você vai arruinar o fechamento do contrato! — sibilou Ricardo, agarrando o braço de Lucas com força.

Lucas não se abalou. Com um movimento seco, ele desvencilhou-se do aperto do tio, sua expressão fria e desprovida de qualquer emoção familiar. Ele caminhou em direção ao moribundo com uma autoridade que fez os seguranças recuarem instintivamente. O salão, antes barulhento com o escárnio, agora mergulhava em um silêncio absoluto. Lucas se aproximou do paciente enquanto Ricardo, em pânico, ordenava que os seguranças o removam à força. A elite observava, paralisada, enquanto o destino do império Viana se decidia na ponta dos dedos de um homem que todos juravam ser um fracasso.

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