O Preço da Salvação
O ar no salão de leilões de jade estava saturado com o odor metálico do sangue e o perfume caro da elite paulistana. Bittencourt, o magnata cujo capital era a espinha dorsal da fusão que Ricardo tanto cobiçava, estava estendido sobre o mármore frio. Sua traqueostomia improvisada, executada com a precisão cirúrgica de um bisturi que Lucas mantinha guardado como segredo, pulsava suavemente em seu pescoço.
Ricardo não perdeu um segundo. Ele se posicionou entre o corpo de Bittencourt e a multidão, ajustando as abotoaduras de seu terno sob medida, o rosto esculpido em uma máscara de preocupação ensaiada. Quando os paramédicos da equipe particular da família finalmente irromperam, Ricardo apontou para Lucas, que se mantinha afastado, com as mãos ainda manchadas de sangue seco.
— Afastem-se! — Ricardo ordenou, sua voz projetada para que os investidores ouvissem. — O atendimento de emergência foi estabilizado por mim. O rapaz ali apenas segurou o material. Ele é um estagiário, um erro de percurso que não entende a gravidade do que quase perdemos hoje.
O salão silenciou. Ricardo caminhou até o magnata, que começava a recobrar a consciência, e sussurrou algo que parecia uma promessa de lealdade eterna. Mas Bittencourt, com os olhos vidrados e a respiração ainda difícil, ignorou o herdeiro da família. Ele ergueu a mão trêmula e apontou diretamente para Lucas.
— Não... foi ele — Bittencourt sussurrou, a voz rouca, mas audível no silêncio sepulcral do salão. — O único que soube o que fazer. Ele salvou minha vida.
A máscara de Ricardo trincou. A humilhação, antes direcionada a Lucas, voltou-se contra ele como um bumerangue de vidro estilhaçado.
Minutos depois, na sala VIP, a porta fechou-se com um estalo metálico. O ar ali dentro era rarefeito. Ricardo não perdeu tempo com cordialidades. Seus dedos tremiam levemente enquanto ele apontava para Lucas.
— Você tem ideia do que fez? Aquela traqueostomia foi uma barbárie cirúrgica. Se a fusão naufragar por causa da sua exibição, eu garanto: a vaga da sua mãe no hospital será a primeira coisa a desaparecer. Você voltará para o buraco de onde nunca deveria ter saído.
Lucas, mantendo a postura impecável, caminhou até a mesa de mogno, ignorando o cheque que Ricardo deslizou pela superfície.
— O valor é alto, Ricardo. Mas o problema não é o dinheiro. O problema é que o seu hospital não é um centro de cura, é um centro de desvios. Eu não apenas salvei Bittencourt; eu vi o prontuário que você tentou fraudar.
Ricardo travou, o rosto perdendo a cor. Antes que pudesse responder, uma batida suave na porta interrompeu a tensão. Beatriz entrou, observando a cena com uma curiosidade afiada.
— Doutor Lucas — ela disse, ignorando Ricardo. — Você não é um residente de segunda categoria. A traqueostomia que fez foi uma aula de anatomia aplicada. Seu irmão está tentando vender uma narrativa, mas o Bittencourt sabe quem segurou a vida dele por um fio.
Beatriz aproximou-se, baixando o tom.
— O colapso de Bittencourt não foi um acidente. Foi sabotagem. A família que você enfrenta é apenas um peão em um jogo muito maior. Se quer proteger sua mãe, você precisa de um aliado que enxergue o tabuleiro inteiro, não apenas as peças que seu irmão move.
Lucas sentiu o peso do bisturi no bolso interno de seu paletó. A aliança com Beatriz era um risco, mas a inércia era uma sentença de morte. Ao sair para o estacionamento, Ricardo tentou uma última intimidação, bloqueando seu caminho.
— Você acha que venceu? Amanhã, o crédito será meu.
Lucas parou, seus olhos frios encontrando os de Ricardo.
— O crédito não é seu, Ricardo. E os registros de desvio de verba que usei para encobrir a negligência nos últimos meses estão em cópias seguras. Tente apagar meu nome, e os federais terão acesso à contabilidade da linhagem antes do amanhecer. A vaga da minha mãe será garantida, e você será apenas o espectador da sua própria ruína.