O Julgamento Final
O ar na sala de reuniões do Saint-Jude não era mais o de uma diretoria, mas o de uma sala de autópsia. O cheiro de café frio e o pânico metálico dos diretores pairavam sobre a mesa de mogno, onde Lucas, agora o único ponto de gravidade no ambiente, mantinha uma calma cirúrgica. Roberto, o outrora intocável patriarca, estava encurralado contra a parede de vidro, o rosto cinzento, as mãos trêmulas tentando inutilmente dobrar os documentos que provavam sua ruína.
— O prontuário de Viana não é um erro médico, Roberto. É um rastro financeiro — a voz de Lucas cortou o silêncio com a precisão de um bisturi. — A substância que você introduziu no soro dele possui uma assinatura química específica. A mesma que consta nos registros de compra da sua conta offshore em Cayman. A auditoria da Apex Capital não é mais uma ameaça; é o seu veredito.
Roberto tentou se recompor, a máscara de magnata benevolente esfarelando-se sob a luz crua do projetor. — Isso é uma calúnia! Você foi demitido, Lucas. Você não tem autoridade para... — Ele buscou apoio nos outros diretores, mas encontrou apenas rostos pálidos e evitativos. O poder havia mudado de mãos, e a lealdade deles, sempre atrelada ao capital, já havia migrado para quem detinha a chave do cofre.
Beatriz entrou na sala. O silêncio que a acompanhava era absoluto. Ela não olhou para Roberto. Com um movimento firme, depositou um tablet de alta segurança sobre a mesa. A tela exibia o acesso ao servidor central, o último bastião de proteção digital de Roberto, agora sob controle total de Lucas. O acesso administrativo fora revogado. Roberto estava, pela primeira vez, nu diante do conselho.
— O jogo acabou — disse Lucas, sem desviar o olhar. — A Apex Capital anulou a liquidação e entregou seus registros financeiros ao Ministério Público. Cada miligrama de substância administrada para forçar o colapso dos pacientes está documentado.
Roberto avançou um passo, uma tentativa patética de intimidar o sobrinho que sempre tratara como um erro estatístico. — Você não passa de um funcionário de baixo escalão! Eu construí este lugar!
— Você foi um parasita deste lugar — retrucou Lucas, gesticulando para os seguranças. Eles não hesitaram. Ao sinal de Lucas, o patriarca foi escoltado para fora, a dignidade sendo drenada a cada passo arrastado pelo corredor de mármore.
No gabinete da presidência, o silêncio era denso. Beatriz estava diante da mesa, as mãos escondidas sob o jaleco.
— A auditoria não é uma sugestão, Beatriz — disse Lucas, observando a vista da cidade. — Sei que você tentou ignorar os desvios. A negligência sistemática que permitiu a sabotagem está aqui. — Ele deslizou o tablet. — O hospital morreu sob a gestão dele. A questão agora é se você vai aceitar a reestruturação ou se o dossiê da sua cumplicidade será entregue ao MP nesta mesma hora.
Ela engoliu em seco, a autoridade técnica reduzida a pó. — O que você quer?
— Que o Saint-Jude volte a ser um hospital. A responsabilidade técnica é sua. A minha é garantir que nunca mais alguém como Roberto pise aqui.
Lá embaixo, as luzes giratórias da Polícia Federal pintavam de azul e vermelho as paredes de mármore. Lucas observou Roberto ser algemado. Não houve resistência. O choque da exposição pública havia drenado qualquer resquício de poder do patriarca. Lucas sentou-se na cadeira de presidente, a superfície de couro ainda aquecida pelo corpo de seu antecessor. O primeiro relatório de estabilidade financeira brilhou em sua tela. O Saint-Jude era seu, mas o verdadeiro trabalho — a guerra pela influência real — estava apenas começando.