O Contra-Ataque
O gabinete da diretoria do Saint-Jude, antes um santuário de mogno e poder, cheirava agora a ozônio e derrota. Lucas observava o cursor piscando na tela principal: uma sequência de erros 404 que ele reconhecia como a assinatura digital de Roberto. O acesso ao sistema financeiro estava bloqueado; o servidor de liquidez, drenado.
— O sistema foi fragmentado — a voz de Beatriz soou à porta. Ela entrou, os sapatos ecoando com uma urgência que tentava esconder sob a postura impecável. — Roberto não apenas cortou o acesso. Ele destruiu os registros contábeis. Sem esses dados, a auditoria da Apex Capital tem o pretexto perfeito para a liquidação imediata.
Lucas não se virou. Seus dedos deslizavam pelo teclado, contornando a criptografia que Roberto, em sua última cartada de magnata despejado, instalara para garantir que o hospital caísse junto com seu nome. O Saint-Jude não era apenas um prédio; era um ativo que Roberto preferia ver em cinzas a entregá-lo ao sobrinho que um dia chamou de fracassado.
— Ele quer que a Apex nos liquide — disse Lucas, finalmente encarando Beatriz. O contraste no rosto dela era nítido: a executiva que sempre priorizou a ordem agora via sua estabilidade ruir. — Ele sabe que, se a Apex assumir a dívida, ele se livra de qualquer responsabilidade criminal pelo que fez nos últimos anos.
Antes que Beatriz pudesse responder, a porta foi aberta com um estrondo. Viana, o representante da Apex Capital, entrou sem ser anunciado. Ele não esperou que a secretária terminasse de anunciar sua presença; atravessou a recepção com o terno impecável, atraindo olhares de pânico da equipe de enfermagem.
— O tempo da sua gestão acabou, Lucas — Viana disparou, a voz cortante ecoando. — Trouxe a notificação de liquidação compulsória. Assine agora e pouparemos sua família da humilhação pública de um despejo forçado. Amanhã, este nome será apenas uma nota de rodapé em um processo de falência.
Lucas levantou-se, a postura firme. — Isso não é técnico, Viana. É uma manobra suja de desvalorização de ativos. O senhor sabe perfeitamente que o hospital é lucrativo se não fosse pela sabotagem intencional de um ex-diretor desesperado.
Viana soltou uma risada seca, caminhando pelo corredor, forçando Lucas a recuar até a mesa de cirurgia desativada. — O mercado não se importa com a sua linhagem, doutor. O hospital está apodrecendo, e os investidores querem sangue. A decisão já está tomada: o Saint-Jude será entregue à Vanguarda Médica em poucas horas.
Lucas não respondeu. Ele sabia que o confronto direto com Viana era perda de tempo enquanto a sabotagem estivesse ativa. Assim que o representante saiu, Lucas dirigiu-se à ala de manutenção. Lá, entre o zumbido metálico dos servidores, ele rastreou a rotina de deleção programada. Não era um erro; era um contrato. Em um diretório oculto, encontrou o acordo assinado por Roberto: a entrega do Saint-Jude como sucata para o conglomerado rival em troca de uma indenização pessoal astronômica.
Roberto não estava apenas sabotando o hospital por vingança; ele estava vendendo a própria linhagem por um bilhete de saída.
Com a prova em mãos, Lucas retornou ao saguão. O mármore parecia mais gélido que o habitual. Roberto estava lá, flanqueado por Viana e seguranças particulares, sua arrogância decadente escondida atrás de um sorriso nervoso.
— Você não deveria estar aqui — sibilou Roberto ao ver Lucas. — A segurança foi instruída a removê-lo.
Lucas parou a poucos metros, ignorando os seguranças. Ele estendeu o documento sobre a bancada de recepção, onde os acionistas podiam ver claramente a assinatura de Roberto e os termos da venda.
— Viana, talvez queira ler a cláusula de rescisão técnica que o seu 'sócio' assinou — disse Lucas, a voz soando como metal sobre pedra. — Ele não está vendendo um hospital; ele está cometendo fraude contra acionistas. O contrato é nulo, e a sabotagem está documentada.
O silêncio no saguão foi absoluto. Roberto empalideceu, o tremor em suas mãos denunciando o colapso nervoso. Viana pegou o documento, seus olhos percorrendo as linhas com uma rapidez voraz. O escândalo da sabotagem, se tornado público, destruiria a reputação da Apex.
O representante da Apex Capital abriu a boca para responder, mas, subitamente, sua expressão mudou. O rosto de Viana tornou-se cinzento. Ele levou a mão ao peito, cambaleou para trás e colapsou no mármore, as negociações interrompidas por um mal súbito que deixou o destino do hospital em um impasse mortal.