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Chapter 2: Ameaça ao Patrimônio

Roberto tenta silenciar Lucas revogando seu acesso digital e expulsando-o do hospital, acreditando ter eliminado a ameaça. Lucas, contudo, mantém a prova documental da negligência, preparando o terreno para uma auditoria que forçará sua reentrada como consultor de crise.

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Ameaça ao Patrimônio

O ar na ala de emergência do Hospital Santa Helena mantinha o odor característico de dinheiro novo e desespero estéril. Lucas, ainda com o jaleco manchado pelo esforço de ter estabilizado o Sr. Valente, não teve tempo para a catarse. O silêncio do corredor foi cortado pelo som metálico de botas táticas: a segurança particular de Roberto, enviada para garantir que o 'incidente' fosse contido antes de virar manchete.

Roberto surgiu logo atrás, o rosto uma máscara de cordialidade corporativa que mal escondia o tremor de fúria em suas mãos. Ele não olhou para o prontuário que Lucas segurava; olhou apenas para a porta de saída.

— Lucas, você excedeu todas as suas prerrogativas — disse Roberto, a voz baixa, projetada para não alarmar os acionistas que ainda cochichavam no saguão. — Sua intervenção no Sr. Valente foi um erro técnico grave, uma violação de protocolo que coloca a licença do hospital em risco. Entregue o prontuário agora e saia. Seus pertences serão descartados.

Beatriz, parada ao lado, observava a cena com uma rigidez cortante. Ela vira a precisão cirúrgica de Lucas quando a equipe oficial falhou; ela sabia que a vida do investidor dependia daquele diagnóstico exato. Mas o sistema era o seu patrão, e Roberto era a face do sistema.

— Um erro técnico, Roberto? — Lucas deu um passo à frente, sua voz desprovida de qualquer medo. Ele não parecia o parente descartável que a família costumava ignorar. — O protocolo de vocês causou um choque anafilático por negligência na triagem. Eu tenho aqui a prova documental de que a medicação foi administrada sem a checagem de histórico. Se eu sair por aquela porta, esse prontuário não vai para o lixo. Ele vai para a corregedoria da ANS e para o conselho de administração que está ali atrás de você.

Roberto empalideceu. O pânico, antes contido, agora era palpável. Ele sabia que o hospital estava à beira de uma falência técnica por má gestão, e Lucas acabara de apontar a arma para o seu peito.

Mais tarde, na sala de observação, Beatriz confrontou Lucas. O ambiente era rarefeito, carregado com o cheiro de desinfetante caro. Ela mantinha as costas retas, mas seus olhos traíam uma inquietação profissional.

— Você salvou o Sr. Valente, é um fato — começou ela, tentando restaurar a hierarquia. — Mas você expôs uma falha sistêmica que a diretoria não vai perdoar. Roberto está em reunião com o conselho. Eles não vão chamar isso de milagre; vão chamar de violação de protocolo.

— O protocolo deles quase matou um investidor de nove dígitos, Beatriz — retrucou Lucas, invadindo o espaço pessoal dela. — Roberto não está preocupado com o protocolo; ele está preocupado com o prontuário que incrimina a equipe que ele mesmo protege. Você quer ser cúmplice de uma gestão que troca vidas por margem de lucro, ou quer ver como a medicina é praticada quando não há corrupção no caminho?

Beatriz hesitou. Ela conhecia a rede de negligências escondidas sob a fachada de luxo. Pela primeira vez, ela não viu um subalterno, mas um igual. No entanto, a lealdade ao sistema ainda era um peso.

Enquanto isso, no escritório da diretoria, Roberto encarava o monitor, os dedos tamborilando na mesa de mogno com uma cadência errática.

— Quero esse acesso revogado agora — ordenou ele ao técnico de TI. — Não quero que esse rapaz consiga nem consultar a temperatura de um quarto. Transforme-o em um fantasma.

O técnico, suando frio, executou o comando. O ID de Lucas foi deletado do sistema central. Roberto soltou um suspiro de alívio, acreditando que, ao apagar o registro digital, estava apagando a evidência. Ele ordenou a expulsão física de Lucas das dependências do hospital.

No estacionamento VIP, dois seguranças flanqueavam Lucas. Eles não o tratavam como um médico, mas como uma ameaça biológica. No alto da rampa, Roberto observava através do vidro fumê, sentindo-se vitorioso. Ele não sabia que, no bolso interno do jaleco de Lucas, o dispositivo de armazenamento continha a trilha completa da negligência.

Lucas entregou o crachá com um sorriso frio. Ele não lutou; ele apenas esperou que o sistema cometesse o erro final. Enquanto os seguranças o escoltavam para fora, Lucas enviou o arquivo para um contato externo. O hospital o havia banido, mas ele acabara de garantir que o pesadelo de Roberto estava apenas começando.

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