O Descarte no Vidro
O reflexo de Arthur Viana no vidro temperado da sala de reuniões era a única coisa que não parecia deslocada ali. Enquanto o sol do final da tarde incendiava a costa carioca, transformando o oceano em uma lâmina de ouro, dentro da sala a atmosfera era gélida, estéril e carregada de desprezo. Henrique Viana não olhou para o sobrinho. Ele mantinha os dedos finos pousados sobre o contrato de aquisição da rede hospitalar, um documento que selaria a venda de ativos que, na visão de Arthur, eram o alicerce de uma tragédia anunciada.
Henrique riu, um som seco, desprovido de qualquer calor familiar.
— O Arthur insiste em aparecer — disse o magnata, dirigindo-se aos investidores com um sorriso que não alcançava os olhos. — Ele acha que anos em clínicas de periferia, costurando feridas de desocupados, o tornam apto a sentar à mesa com quem realmente entende de gestão hospitalar. É uma forma curiosa de caridade, não acham?
Risos contidos ecoaram pela sala. Beatriz Lacerda, sentada à direita de Henrique, tamborilava os dedos sobre o tablet. Seu olhar para Arthur era de uma frieza profissional, um ceticismo que, para Arthur, era quase um convite. Ela não o odiava; ela apenas o via como uma variável irrelevante na equação de lucro da Viana Corp.
— A gestão periférica lida com a realidade biológica que o senhor, tio, parece ter esquecido — Arthur respondeu, sua voz mantendo uma calma cirúrgica que fez o riso na sala morrer instantaneamente. — O paciente VIP que vocês estão usando para inflar o valor desse contrato não é um ativo. Ele é um paciente com uma contraindicação severa que vocês ignoraram.
Henrique levantou-se. A autoridade dele não vinha da voz, mas da marca que ele representava. Ele apontou para a porta com um gesto de desdém absoluto.
— Saia. Você é um erro que a família Viana já deveria ter corrigido há muito tempo. Seus delírios de grandeza não vão atrasar o fechamento de uma transação de trezentos milhões.
Arthur não se moveu por um segundo a mais do que o necessário para gravar o rosto de cada um ali. Ele saiu sob o silêncio pesado da sala.
O corredor estéril cheirava a desinfetante e dinheiro recente. Arthur caminhava com a precisão de quem conhece cada falha na estrutura daquele hospital. Beatriz Lacerda surgiu na curva, pastas grossas debaixo do braço, salto ecoando seco contra o piso. Ela parou ao vê-lo.
— Doutor Viana. Ainda por aqui? Achei que o tio já tivesse mandado você embora com o resto dos estagiários — ela disse, os olhos frios como planilhas.
Arthur estendeu a mão sem pedir.
— Me mostre o prontuário do paciente VIP. O que vão transferir hoje à noite.
Beatriz hesitou, mas a intensidade no olhar de Arthur — uma ausência total de medo — a forçou a uma pausa. Ele puxou a pasta de cima antes que ela pudesse protestar. Seus dedos abriram o laço com precisão de quem já costurou artérias em turnos de 36 horas. Ele parou na página de alergias.
— Penicilina registrada como “sem reação anterior”. Mas o histórico de 2019 mostra um choque anafilático completo a contrastes iodados — Arthur murmurou. — Se injetarem o contraste para o procedimento de rotina agendado daqui a dez minutos, ele entrará em choque. E o hospital, com essa venda, será o responsável pelo homicídio culposo.
Beatriz empalideceu, o ceticismo dando lugar a uma dúvida elétrica.
— Isso é impossível. O sistema teria bloqueado…
— O sistema foi ajustado para ignorar alertas a fim de acelerar a liberação do leito — Arthur cortou, devolvendo a pasta. — Você tem dez minutos para decidir se quer ser a executiva que salvou o senador ou a que assinou o atestado de óbito da própria carreira.
Ele a deixou ali, paralisada no corredor. Arthur caminhou em direção à sala de reuniões, mas não para entrar. Ele parou junto ao painel de controle do sistema de som, calçando suas luvas cirúrgicas.
Lá dentro, Henrique Viana, ignorando o perigo biológico iminente, pegou a caneta de luxo. Ele assinou o contrato com um floreio. O som da caneta raspando o papel foi o gatilho. Arthur observou o prontuário do paciente VIP no monitor de segurança: um erro fatal que o patriarca ignorou. O contrato estava selado, mas a bomba-relógio já havia começado a contagem regressiva.