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Chapter 2: O Peso do Livro-Razão

Leo confronta Tia Mei sobre a dívida e descobre, através do Livro-Razão, que seu pai o vinculou ao clã ainda na infância. A tentativa de Leo de se distanciar falha quando ele é forçado a intervir em uma briga no mercado, revelando habilidades que ele não sabia possuir, sob o olhar atento de Wei.

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O Peso do Livro-Razão

O ar no escritório de Tia Mei não era apenas denso; era um ambiente de pressão atmosférica alterada. O cheiro de sândalo queimado misturava-se ao odor metálico de registros antigos, uma combinação que, para Leo, sempre significara o fim de qualquer negociação racional. Wei permanecia como uma estátua de granito junto à porta, os braços cruzados sobre o peito, observando cada microexpressão de Leo com uma impaciência calculada.

— Você ainda acredita que o mundo lá fora joga pelas regras que aprendeu na faculdade, Leo — a voz de Mei era uma lâmina seca. — Mas o dinheiro, o seu dinheiro, é uma ilusão de controle. A rede que sustenta sua carreira, os clientes que você atende, os contratos que você assina... tudo isso foi tecido aqui, muito antes de você aprender a escrever seu nome.

Leo sentiu o suor frio. Ele colocou um maço de notas sobre a mesa de mogno — uma quantia que, no centro financeiro, resolveria qualquer pendência de curto prazo. Wei nem sequer piscou. O silêncio que se seguiu foi mais pesado que qualquer grito.

— Quero ver os registros — exigiu Leo, forçando a voz a não oscilar. — Se há uma dívida, ela tem um credor, um valor e um prazo. Eu pagarei o que for preciso para encerrar esse ciclo e voltar para a minha vida.

Wei soltou uma risada curta, desprovida de qualquer humor. Mei, ignorando o dinheiro como se fosse poeira, girou a chave no cofre embutido na parede. O metal rangeu, um som de ferro velho que parecia uma sentença. Ela retirou uma pasta fina de couro rachado, amarrada com um barbante vermelho desbotado, e a colocou sobre a mesa com uma reverência sinistra.

— O Livro-Razão não registra apenas números, Leo. Ele registra lealdades — disse ela, desatando o nó com dedos precisos.

Dentro, havia uma única folha amarelada. Ao desdobrá-la, Leo viu linhas escritas à mão em tinta preta, quase marrom pelo tempo. No rodapé, duas assinaturas: uma adulta, firme, inconfundível — a do pai dele — e outra, infantil, trêmula, tentando imitar letra de forma. Ao lado da assinatura infantil, uma impressão digital pequena, borrada de tinta vermelha.

Leo sentiu o ar prender em seus pulmões. — Isso é falsificação. Eu tinha oito anos. Como isso pode ser vinculativo?

— O sangue não pede permissão para ser cobrado — Mei respondeu, seus olhos fixos nos dele. — Seu pai não era apenas um comerciante; ele era o mediador que mantinha a rede funcional. Quando ele se foi, o peso do que ele mediou não desapareceu. Ele foi transferido. Você não é um estranho que voltou para uma visita; você é o fiador que retornou para assumir o contrato.

Leo tentou recuar, mas a realidade daquele documento era um âncora. Ele percebeu, com um pavor crescente, que sua independência fora apenas um empréstimo concedido pela rede, monitorado de perto por décadas. Ele não podia simplesmente sair.

Ao sair do escritório, atordoado, Leo foi empurrado para o Mercado Central. O local fervilhava, mas o barulho das bancas de especiarias e o movimento dos pedestres pareciam distantes, como se ele estivesse submerso. Wei o seguia, uma presença constante e opressora. De repente, o caos explodiu. Dois homens colidiram contra uma pilha de caixotes, uma disputa silenciosa por território que escalou para a violência em segundos. Um dos agressores sacou uma lâmina oculta na manga. O movimento de Leo foi puramente reflexivo: um bloqueio técnico, uma manobra de desarmamento que ele jurou nunca ter aprendido, mas que seus músculos executaram com uma precisão cirúrgica e letal. O agressor caiu, desarmado e atordoado, enquanto o mercado silenciava ao redor deles. Wei observou a cena, um sorriso sinistro desenhando-se em seu rosto enquanto Leo encarava suas próprias mãos, aterrorizado pela facilidade com que o 'estranho' da família revelara sua verdadeira natureza.

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