O Arquivo que Não Deveria Existir
A chuva de São Paulo não lavava nada; apenas transformava a fuligem da Avenida Paulista em uma pasta cinzenta que grudava na alma. Lucas observava o reflexo do prédio da emissora Valente no vidro embaçado de um bar decadente, onde a imagem de Beatriz brilhava imensa em um telão de alta definição. O âncora do telejornal, com a voz treinada para transmitir uma gravidade artificial, anunciava o "afastamento por exaustão" da herdeira.
— Ela não está exausta — Lucas murmurou para o copo de café frio. — Ela está sendo apagada.
Ele conhecia o roteiro. A família Valente não permitia que seus ativos se desviassem da narrativa. O anúncio era o sinal de que Beatriz havia parado de responder aos comandos. Seu celular vibrou sobre o balcão de fórmica gasta. Uma notificação pesada, um pacote de dados criptografados, ignorou o firewall básico do aparelho e forçou uma abertura na tela principal. O remetente era um código que ele não via há três anos, desde que o Patriarca o expulsara da folha de pagamento.
Lucas sentiu o estômago revirar. Ao tocar no ícone, uma interface rudimentar surgiu, exibindo um contador em vermelho sangue: 144:00:00. Seis dias. Um áudio distorcido começou a reproduzir, abafado pelo ruído da chuva lá fora. A voz de Beatriz, sobreposta ao som de vento e metal batendo, era um sussurro cortante: — Lucas, eles acreditam que o silêncio é uma escolha. Mostre a eles o contrário.
Ele não esperou a conta fechar. Pagou o café com uma nota amassada e saiu para a noite. Seu apartamento, um cubo de concreto no centro, era o único lugar onde ele podia trabalhar sem o olhar intrusivo dos Valente. Ao chegar, o zumbido dos servidores escondidos sob a mesa de trabalho parecia um aviso. Na tela, o arquivo pulsava como um coração doente.
Lucas digitou a chave de descriptografia, um código pessoal criado anos antes, durante o auge de sua proximidade com a herdeira. Ele precisava apenas do índice. De repente, o monitor piscou. Uma janela de prompt surgiu sobre o código: Acesso não autorizado. Rastreamento de IP ativo.
O sangue de Lucas gelou. O sistema de segurança da família Valente não estava apenas monitorando as notícias; eles haviam injetado um script de busca nos servidores de nuvem que Beatriz usara. Eles estavam caçando a própria herdeira através de suas pegadas digitais. Se o rastreamento completasse a varredura, a localização de Lucas seria enviada diretamente para a equipe de contenção do Patriarca.
— Não hoje — sibilou ele, os dedos voando sobre o teclado. Ele isolou o fluxo de dados, forçando o script a seguir um honeypot falso em um servidor na Rússia. A manobra custou-lhe o acesso à rede principal, mas garantiu o arquivo. O contador, porém, não parou. Ele visualizou o cronômetro novamente: 143:52:14. O arquivo se autodestruiria em 144 horas. Lucas percebeu, com um aperto no peito, que não era um espectador, mas o alvo.
Ele precisava das evidências físicas. Sem hesitar, Lucas pegou o cartão de acesso que Beatriz lhe dera anos atrás, durante uma das muitas crises de pânico dela. Deveria ter sido desativado, mas o sistema, em sua arrogância tecnológica, ainda o reconhecia. Ele dirigiu até o Edifício Valente Business, sentindo o ar condicionado estéril do subsolo atingir seu rosto como um tapa. O nível B3 estava mergulhado em uma penumbra técnica, o zumbido dos servidores competindo com o gotejar de seu casaco encharcado.
Lucas caminhou até o cofre de segurança, escondido atrás de uma divisória de manutenção. O coração batia um ritmo acelerado, uma contagem regressiva pessoal que competia com as horas que lhe restavam. Ele digitou a sequência. O painel piscou em verde. Por um segundo, a esperança tomou conta de seus movimentos. Ele girou a maçaneta de aço escovado, esperando encontrar os recibos, as assinaturas, a âncora que segurava o Livro Negro.
O cofre estava vazio. Não havia papéis, nem pendrives. Apenas o vazio metálico. Mas, ao aproximar o rosto, Lucas parou. O cheiro de perfume de Beatriz — uma mistura específica de jasmim e ozônio — ainda pairava no ar, denso e recente. Alguém a tirara de lá minutos antes. Ele não estava apenas correndo contra o tempo; ele estava correndo contra os homens que haviam acabado de silenciá-la.