Seis Dias para o Silêncio
O estalo metálico de uma lanterna tática cortando a escuridão do armazém, na Zona Leste, foi o único aviso que Lucas teve. Ele estava agachado atrás de uma pilha de paletes úmidos, o cheiro de mofo e óleo queimado impregnando suas roupas. O cronômetro em sua mente — agora reduzido a exatas 5 dias e 20 horas — pulsava com a urgência de uma sentença de morte. A cada passo dos seguranças dos Valente, o silêncio de São Paulo lá fora era engolido pelo ritmo pesado das botas no concreto. Ele não podia lutar; não com três homens armados varrendo o perímetro com precisão cirúrgica. Sua única vantagem era o barulho da tempestade que castigava o telhado de zinco, um dilúvio que transformava o armazém em uma caixa de ressonância de trovões.
Lucas apertou o drive físico contra o peito. Aquele pequeno pedaço de silício era a âncora que ligava o Patriarca Valente ao assassinato de duas décadas atrás, a prova que Beatriz morreria para proteger. Ele rastejou para o duto de ventilação, abandonando sua mochila com suprimentos essenciais para ganhar segundos preciosos. Quando o metal do duto rangeu sob seu peso, um segurança chutou a porta que ele acabara de desocupar. Lucas não olhou para trás; ele apenas deslizou para a escuridão do subsolo.
O ar ali embaixo cheirava a ozônio e poeira antiga. Lucas conectou o drive ao terminal central. O monitor piscou, revelando o arquivo morto da família. A barra de download avançava lentamente enquanto o sistema de segurança, alertado pela intrusão, emitia um zumbido agudo. De repente, uma voz distorcida por software preencheu a sala. Era Beatriz. O áudio, gravado como uma confissão de última hora, revelava que ela sabia que seria caçada. Mais do que isso: as pistas eram propositais. Ela estava conduzindo-o através das entranhas do império para que a verdade não morresse com ela. O download terminou, mas o alarme de incêndio foi disparado. O sistema de purga fora ativado.
Lucas correu pelos corredores de serviço enquanto o gás halon começava a expelir dos dutos, roubando o oxigênio e a visibilidade. Ele foi interceptado por um segurança. Sem hesitar, Lucas usou um extintor de incêndio como escudo, desferindo um golpe seco antes de cegar o homem com o jato de pó químico. Ele escapou pela janela lateral segundos antes de uma explosão controlada consumir todo o arquivo, transformando as evidências físicas em cinzas e chamas.
Ele caiu no asfalto encharcado, o ombro latejando. Sirenes ecoavam ao longe. Enquanto tentava se recompor, um telão de LED em uma fachada próxima brilhou, atravessando a cortina de água. A imagem de Lucas — uma foto tirada de um sistema de segurança — estampava a tela. O âncora de um grande canal de notícias falava com gravidade: "Suspeito de sabotagem industrial e envolvimento no desaparecimento da herdeira Beatriz Valente é considerado perigoso".
Lucas ficou imóvel, a chuva lavando o sangue de sua testa. O plano dos Valente era perfeito: ele não era mais um investigador, era o bode expiatório. Com o drive no bolso e a cidade inteira sendo instruída a caçá-lo, ele percebeu que o tempo não era mais apenas uma contagem regressiva para a verdade, mas para sua própria execução. Ele tinha 5 dias e 15 horas antes que o sistema de segurança da família apagasse todo o restante de sua vida.