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Chapter 1: O Arquivo que Não Deveria Existir

Lucas recebe um arquivo criptografado de Beatriz minutos antes de a notícia oficial de seu desaparecimento ser divulgada. Ao decodificar o 'Livro-Negro', ele descobre provas de um assassinato cometido pelo Patriarca Valente há vinte anos. A tentativa de extração dos dados ativa um rastreador de hardware que entrega sua localização à segurança do clã, forçando-o a fugir enquanto o cronômetro de seis dias dispara.

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O Arquivo que Não Deveria Existir

O celular vibrou sobre a mesa de mogno com uma violência que fez o uísque no copo oscilar. Eram 02h14 da manhã em um centro de São Paulo castigado por uma tempestade que transformava a Avenida Paulista em um borrão de luzes de freio e asfalto negro. Lucas ignorou o copo, agarrando o aparelho. Na tela, um arquivo de áudio desconhecido, sem remetente, apenas um código de hash que ele reconheceria em qualquer lugar.

Ao tocar, a voz de Beatriz emergiu, picotada por uma estática metálica, quase ininteligível.

— Lucas, eles não vão esperar. O relógio começou. Não confie no meu pai. Ele... — O áudio cortou, substituído por um silêncio que pesava mais que o trovão lá fora.

Lucas tencionou a mandíbula. O ceticismo era sua única defesa contra a loucura da herdeira que ele um dia amara, mas o timbre de pavor na voz dela não era encenação. Antes que pudesse processar o aviso, o som da TV no canto da sala subiu automaticamente. O Patriarca Valente ocupava a tela, o semblante forjado em uma dor cenográfica, impecável em seu terno sob medida. Ao lado dele, o relógio analógico de pulso — a mesma peça de edição limitada que Beatriz usava — brilhava sob as luzes dos holofotes.

Lucas sentiu o sangue gelar. Ele abriu o arquivo criptografado no notebook, um Lenovo surrado que já vira dias melhores. Um contador surgiu na tela, em letras vermelhas: 144:00:00. Seis dias. Ele digitou a senha que ela havia sussurrado meses atrás, uma sequência que ele jurara esquecer. O arquivo se abriu, revelando um diretório complexo batizado de Black Ledger.

Ele abriu a primeira planilha. Eram transações financeiras datadas de vinte anos atrás, conectando empresas de fachada, contas em paraísos fiscais e o nome do Patriarca Valente a um pagamento vultoso feito a uma firma de segurança privada, apenas dois dias antes do desaparecimento de um sócio dissidente da época. Não era apenas corrupção; era a prova de um assassinato enterrado sob camadas de filantropia. Beatriz não tinha fugido; ela tinha encontrado a arma do crime e, ao tentar usá-la, tornou-se o próximo alvo de uma engrenagem que não aceitava falhas.

— Onde você se meteu, Bia? — sussurrou ele, a voz rouca pelo cansaço.

Ele iniciou a cópia dos dados, mas a tela travou em 98%. O sistema de segurança da empresa, uma inteligência artificial predatória que ele mesmo ajudara a desenhar anos atrás, começara a corromper os arquivos remotamente. Lucas sentiu o suor frio escorrer pelas têmporas. A cada segundo, a contagem regressiva parecia ganhar peso físico, esmagando o ar do ambiente.

Então, o bipe soou.

Não era um erro de sistema; era um aviso de hardware. Uma luz vermelha pulsou no canto da tela, sincronizada com o envio de um pacote de dados para um servidor externo. O rastreador embutido no arquivo não era apenas um alerta de acesso; era um farol de localização em tempo real para a equipe de segurança dos Valente. Lucas tentou desconectar o Wi-Fi, mas o comando foi negado pelo kernel do sistema. O arquivo era uma isca deliberada. O Patriarca não estava apenas apagando o desaparecimento da herdeira; ele estava caçando qualquer um que ousasse tocar no rastro que ela deixara.

Lucas viu o cursor se mover sozinho, deletando seus backups locais. A segurança privada do clã não precisava de um mandado; eles já haviam cruzado o saguão de seu prédio. Ele fechou o laptop, mas o bipe do rastreador continuou, um som metálico e insistente que ecoava pelos alto-falantes do computador, anunciando que sua localização estava sendo transmitida para os predadores. Ele tinha apenas alguns minutos antes que a porta de seu apartamento fosse arrombada, e a verdade que ele carregava no bolso, em um pendrive improvisado, era agora sua única moeda de troca — ou sua sentença de morte.

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