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Chapter 3: O Preço da Lealdade

Elena confronta Beto no canteiro de obras, usando o caderno como alavanca para salvar a casa de sua mãe. Beto revela que o Sr. Aris foi levado por traição e oferece uma pista sobre seu paradeiro, enquanto Elena descobre uma evidência chocante sobre o envolvimento de seu próprio pai na rede.

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O Preço da Lealdade

A umidade da manhã pesava sobre o concreto rachado da calçada, mas o suor de Elena não vinha do calor. Ela apertava a bolsa contra o corpo, sentindo a quina rígida do caderno de registros pressionar suas costelas como uma prova de culpa. A casa de sua mãe, com a pintura descascada que ela tanto tentara ignorar, parecia agora uma fortaleza sitiada. Dois homens — vizinhos que ela vira centenas de vezes cumprimentando o Sr. Aris com reverência — estavam parados do outro lado da rua, conversando com um oficial de justiça que segurava uma pasta de couro reluzente. O oficial não procurava uma casa qualquer; ele conferia o número com a precisão de um predador que já conhece o caminho.

— O Sr. Aris não está, e o senhor não tem autorização para entrar aqui — Elena disparou, sua voz falhando apenas o suficiente para trair o medo.

Foi o Sr. Mendes, um vizinho que até a semana passada implorava por favores na mercearia, quem deu um passo à frente com um desdém frio.

— O Aris fugiu, Elena. E ele deixou uma conta que o bairro não pode mais pagar. Beto quer apenas o que é justo pelo progresso que estamos recebendo.

Elena recuou, trancando a porta de casa logo atrás de si. A neutralidade que ela cultivara por anos como tradutora fora estilhaçada; ela agora era a guardiã de um segredo que o bairro inteiro parecia querer vender. No silêncio do seu quarto, sob a luz fraca de uma luminária, ela abriu o caderno. As páginas amareladas pulsavam com dívidas morais e financeiras. Ao cruzar os códigos, o sangue de Elena gelou: a casa de sua mãe não era apenas uma garantia; era uma peça de xadrez em uma transação assinada anos atrás por Beto. A assinatura dele, arrogante e fluida, aparecia em uma entrada datada de um período em que ele ainda era um garoto pedindo fiado na mercearia.

Ela precisava de respostas. Sem avisar, partiu para o canteiro de obras da nova torre de Beto. O ruído das britadeiras era uma perfuração constante, um lembrete físico de que o bairro estava sendo devorado. Beto a esperava sobre uma base de concreto, a silhueta recortada contra o esqueleto de aço do edifício que prometia apagar a memória daquela rua.

— Você veio — disse ele, sem desviar o olhar do horizonte de guindastes. — Achei que a pequena tradutora preferisse a segurança de seu escritório com ar-condicionado a se sujar de poeira.

Elena retirou o caderno de dentro da jaqueta.

— Eu tenho o registro, Beto. O original. Sei que é isso que você quer para fechar os contratos pendentes da quadra. Eu quero o documento de quitação da casa da minha mãe. Agora.

Beto riu, um som seco que se perdeu no vento frio. Ele se aproximou, invadindo seu espaço pessoal, o cheiro de café fresco e concreto úmido emanando dele.

— Você está perdendo tempo, Elena. Esse caderno não é um escudo. Sem o Sr. Aris para decifrar as entrelinhas, ele é apenas papel velho.

Ele a conduziu para o seu escritório improvisado, um ambiente onde maquetes esterilizadas reduziam as casas do bairro a blocos de resina. Beto deslizou um envelope pardo sobre a mesa de vidro. O documento de quitação estava ali, esperando apenas uma assinatura para apagar a dívida que sufocava sua família.

— Ele não desapareceu por medo, Elena. Ele foi levado por quem ele próprio traiu. Se você quer salvar a casa, precisa me dar o caderno. Mas se você quer salvar o velho, precisa olhar para o que está no fundo do armazém da ferrovia.

Elena sentiu o peso do caderno em sua mochila. Ela não estava apenas negociando a casa; estava decidindo o destino de uma rede inteira. Ao sair, seus dedos roçaram uma página solta, esquecida entre as dobras do couro. Ao puxá-la, o chão pareceu sumir sob seus pés. Era um registro de transação datado de anos atrás, e a assinatura que validava a dívida original da rede não era do Sr. Aris, mas de seu próprio pai.

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