O Novo Tabuleiro
O ar-condicionado da sala de reuniões da Sampaio Empreendimentos, antes um símbolo de poder gélido, agora parecia um sistema de suporte de vida falhando. Arthur Vale estava de pé diante da parede de vidro que dominava a costa. Lá fora, o horizonte de concreto e aço que Ricardo Sampaio tentara monopolizar parecia menor, quase insignificante sob a luz incerta da manhã.
Atrás dele, o silêncio dos acionistas não era mais de desprezo, mas de um pânico contido. Eles observavam Arthur como quem encara uma falha geológica: algo que, uma vez movido, altera toda a paisagem.
— O senhor Sampaio não está aqui — a voz de Montenegro, o decano do conselho, soou fina, quase um pedido de desculpas. — A Polícia Federal o levou antes do amanhecer. Esta empresa não pode ser gerida por um estranho. Exigimos uma votação para um administrador interino.
Arthur não se virou imediatamente. Ele observou o reflexo de Beatriz Alencar no vidro. Ela estava tensa, as mãos apertando a pasta com as provas da extorsão que Sampaio usara para asfixiar sua família. Ela esperava o próximo movimento dele.
Arthur girou sobre os calcanhares. Seus movimentos eram econômicos, desprovidos da arrogância teatral de Sampaio. Ele caminhou até a mesa de mogno e, sem dizer uma palavra, depositou um dispositivo de armazenamento criptografado e uma chave física de metal escovado. O som do metal contra a madeira foi o único ruído na sala.
— Esta chave abre o cofre de contabilidade oculta de Sampaio — disse Arthur, a voz baixa, mas carregada de uma autoridade que não admitia réplica. — O dispositivo contém as transferências para as contas na Suíça que sustentam o estilo de vida de cada um de vocês. Montenegro, sua mansão em Angra não foi paga com dividendos da reurbanização, mas com o desvio de verbas da cláusula 4.2. Se a auditoria federal chegar a este arquivo, não haverá conselho para proteger vocês. Haverá apenas celas.
Montenegro empalideceu, o rosto perdendo a cor até parecer cera. Os outros acionistas trocaram olhares rápidos, a lealdade ao antigo magnata evaporando diante da ameaça existencial.
— O que você quer? — perguntou Beatriz, sua voz firme, embora seus olhos traíssem a surpresa.
— Eu quero a reurbanização entregue à comunidade, conforme o projeto original. Sem desvios, sem extorsão. Vocês manterão seus cargos, mas a partir de hoje, a empresa responde a mim. Se um único centavo for desviado, o arquivo será enviado ao Ministério Público. A escolha é simples: sobrevivência ou ruína.
Arthur puxou a cadeira principal. O couro rangeu sob seu peso. Ele não precisou de votos; o medo na sala era a única validação necessária.
Horas depois, o escritório estava em silêncio. Beatriz entrou, trazendo um relatório de auditoria. Ela parou diante da mesa, observando Arthur com uma nova clareza.
— Você não é apenas um estrategista, Arthur. Você conhece cada falha na estrutura deles como se tivesse desenhado o sistema. Por que agora? Por que salvar a minha empresa e destruir Sampaio?
— A linhagem Vale foi construída sobre esta terra, Beatriz. Sampaio não a roubou apenas de você; ele a profanou. Estou apenas corrigindo o balanço.
Ele estendeu o documento que provava o envolvimento direto do Conselho Superior na falência técnica da Alencar Empreendimentos. Beatriz leu, e a raiva em seus olhos substituiu a hesitação. Ela entendeu que a guerra não terminara com a queda de Sampaio; ele era apenas o peão sacrificado pelo Conselho.
— Eles vão retaliar — disse ela.
— Eles já estão fazendo isso.
Uma batida seca na porta interrompeu a conversa. Um mensageiro, um homem de terno cinza sem crachá, entrou e colocou uma caixa de veludo negro sobre a mesa antes de sair sem dizer uma palavra.
Arthur abriu a caixa. Dentro, repousava uma adaga antiga, uma peça de coleção que ele reconheceu instantaneamente como parte do acervo pessoal do presidente do Conselho Superior. Não era um presente; era uma sentença.
Arthur fechou a caixa com um estalo seco. O tabuleiro havia mudado, mas o jogo estava ficando perigoso. Ele olhou para Beatriz, que agora compreendia a extensão da guerra em que haviam entrado.
— Prepare a equipe — ordenou Arthur. — O Conselho acha que pode nos intimidar com símbolos. Vamos mostrar a eles que, neste tabuleiro, as peças que eles sacrificam são as que vão derrubar o rei.